11 dezembro 2012

Solos de guitarra

Tô aqui no Sul e mesmo assim faz uma seca de doer. Falta você aqui perto, contando comigo quantas estrelas fazem parte do nosso plano de fundo. Do nono andar eu vejo a cidade, já é tarde, e enquanto tu couber aqui no peito eu vou levando. Creio que chega uma hora que a querência puramente extrapola, transborda, e aí não tem jeito de não pensar em outra coisa que não seja recordar. Hoje eu fiz isso, então. Hoje eu rebobinei você. Sabe, tipo fita vídeo cassete. Desde as sete eu tô fingindo ver tevê. 
Disseram que o amor nasce de um beijo, de um toque, de um olhar. Mas, de todos estes, eu fico apenas com o último. Malditos olhos por uma noite catafóricos que me fizeram te querer mais ainda. E essa palavra - querer - aqui tem tantos sentidos distintos que nem eu sei mensurar. É tamanho significado essa ausência tua que as vezes eu penso em deixar pra lá. Porém, meu bem, peço nestas linhas que não crie receio sobre mim. Esse filme não é de dar medo, mas, mesmo assim, você pode segurar na minha mão enquanto não chega o fim (tem fim?). Faça isso porque eu não vou querer mais, eu não vou correr atrás, porque o suficiente estará ali. O toque triplo das nossas mãos eu quero multiplicar.
Pra falar bem a verdade, o meu pedido para contigo é uma dança. Mesmo que não saibamos dançar direito, mesmo que seja um passo para lá e outro para cá. Mas, meu bem, eu quero contigo dançar sem música. Na rua, na chuva, em qualquer lugar que eu puder te escutar. Deita então a cabeça no meu peito, esquece o preconceito, porque o que eu quero é só isso. E pode achar que eu sou um mendigo falido que pouca esmola está pedindo, se isso puder existir. Pois o que eu quero com essa metade prosa, metade poesia, é deixar claro para você que a tua chegada eu não vou transformar em partida, e solos de guitarra sempre vão lembrar você.

09 dezembro 2012

Heterogêneo

Baixei um tom em meus dias a partir de hoje para que pudesse escutar com presteza o que acontecia ao redor. Diminuí o volume da música, a entonação na minha voz. Foi uma manhã calma em meio ao caos: mais de mil gritavam, desesperados; e eu lá, em perfeita calmaria. Tudo enfim estava bem.
O sol batia na janela e refletia no peito, o sorriso só não era maior pois eu não compartilhava ele contigo. Pensei, dentro daquela sala branca e apaziguadora, onde você estava. Na cama, certamente, pois são 8 da manhã! - ou não. Talvez estivesse voltando, enquanto eu estava indo. Dividindo ruas longínquas de uma cidade tão pequena, eu e você, afastando o óbvio para não ter que acreditar que, talvez, de um jeito que fosse só nosso, ele daria certo.
Calma foi a palavra escolhida para o dia, então. Quem sabe para o mês. Você precisava respirar um pouco, tentar encontrar o ar para que possa soltá-lo em forma de algumas notas musicais. Eu precisava ficar em quietude, aproveitar o momento que, mesmo não sendo completo, já estava sendo o suficiente. Eu e você nem precisamos acontecer para que eu tenha a certeza de que já foi o melhor encaixe que encontrei.
Na volta para casa, escutei aquele sambinha com sotaque do sul, ainda em volume baixo, e compreendi que algumas coisas são melhores assim mesmo: misturadas. Chá quente com cubos de gelo, queijo com chocolate, curiosidade e nervosismo, eu e você.

05 dezembro 2012

Enquanto derreto

Lambi teu perfume para manter a boca salgada, e noutro instante eu já estava acordado. Como cubo de gelo, eu estava bem ali, esperando, em uma forma plástica onde existiam outros vários. Congelado, quieto, à espera do momento em que eu precisaria ser usado, ser conveniente. Meu bem, é tão fácil me compreender. Uma simples molécula, três estúpidos átomos. Você poderia me desmembrar a qualquer momento.
Cheirei o livro novo e velho para ver se agradava. Espirrei. Esperei. Comecei a ler quando a tarde minguava e a chuva ia embora, dando espaço para o sol que jamais trouxe você. Folheei com pressa, pois a história me agradou. Tive medo, fechei o livro. Quis guardar um pouco para depois. Como o amor, eu não queria ver o final daquela obra logo. Sabe, os personagens recém me foram introduzidos, e os protagonistas (no caso, eu e tu), são complexos demais para se ler em um dia só. Nós somos diferentemente igualitários. Um contraponto que nem você e as tuas teorias saberiam explicar.
Anoiteceu e eu já não soube de nada. O mundo apagou as luzes, me mandou dormir. Mas, ei, eu ainda estou aqui. Corpo quente como o chá na xícara, mente cheia como as páginas deste livro, dúvidas trafegando em caos desenfreado como a vontade de julgar teu sorriso. Olá, olá. Onde você esteve todo esse tempo até que te encontrei? Mérito meu, admite aí. Tchau, tchau. Por que não explicastes tudo antes? Erro meu em não questionar, admite aí. 
Como um hotel sem vagas, esse sou eu, a esperar na geladeira, unicamente por você. Por uma vaga aberta, por um espaço, por uma cama para dormir. Meu bem eu não me importo em dividi-la! Porém acho que, para isso acontecer, preciso largar esse meu vício. Enquanto derreto, então, eu vou largar as metáforas na primeira esquina que aparecer.

16 setembro 2012

Por tanta coisa

Eu te troquei por tanta coisa que nem tenho direito de pedir perdão. Mesmo gostando da ideia de estar ao teu lado, permiti que você fosse embora sem lutar contra a sua despedida. Para mim, o porquê disso sempre foi muito claro: eu não sabia lidar com tanto amor. Ou, melhor, acho que julguei não ser merecedor de tanto.
Eu te troquei por outra boca com gosto de cigarro, eu te troquei por outras quintas-feiras que não tiveram a mesma graça. Veja só, até mesmo as palavras deixei de lado. E, para um escritor, isso é o fim. Entrei em coma, mas para mim estava tudo bem.
Eu te troquei porque sou assim, infelizmente. Abandono as coisas boas para correr atrás das péssimas e tentar transformá-las em boas. Acho que a vida é muito grande para, tão cedo, ter um amor tão perfeito que faria dela uma jornada um tanto quanto sem graça. Eu gosto da tempestade, e você da calmaria. Taí o nosso primeiro erro. Eu me tornei leitor e você foi quem restou como responsável por criar alguns textos. Tudo, então, virou completamente de cabeça para baixo.
Eu te troquei porque não estava pronto, porque a ideia de montar um apartamento me pareceu assustadoramente doce e encantadora. Hoje, voltei a encher o saco porque percebi que você foi embora. Bem quando você pensava que quem já havia partido era eu, sendo que sempre estive aqui. Talvez eu não encontre amor maior nesse mundo, alguém que vá usar meu colar mesmo quando eu partir, alguém que vá vestir as mesmas roupas no quinto dia da semana. Mas, bem, eu não voltei a escrever para pedir esse amor de volta. Não o tive, não o terei. Porque você é o final feliz, e eu sou o clímax tempestuoso que ninguém nunca acaba entendendo. Aquela parte do filme que fica mal explicada, que todos odeiam, mas que deixam de lado por desistência. Ninguém gosta de quebrar a cabeça por algo que nem importa mais.
Eu te troquei por tanta coisa. E é você quem devia ter me trocado.

07 setembro 2012

Como daquela vez

Encontrei teus olhos quando já não esperava encontrar mais nada. E, bem, ainda que tivesse sido uma única vez... Mas não! Foram várias. Teu olhar oblíquo e dissimulado capturou o meu umas três ou quatro vezes, e durante todas elas eu tentei entender o porquê. Na verdade, ao chegar em casa, eu ainda estava pensando nisso. Noite passada a minha cama - aquela mesma que um dia você já repousou - registrou pensamentos inéditos nos últimos meses, sobre o sujeito oculto que já havia ido embora e subitamente retornou para preencher a oração principal.
No entanto, acordei hoje com aquela sensação meio bizarra: o que foi mesmo que fez teu olhar cruzar com o meu? Pois estou certo de que coincidência está fora da jogada. Porém, também não posso evitar a opção de que me olhavas unicamente por maldade, por jogo sujo. Incoerente, eu sei, porque estou falando de você. Ontem, então, após alguns meses de espera em uma estação que nunca imaginei estar (viver ao teu lado foi uma das promessas que eu já fiz a mim), o teu vagão apareceu e eu, em receio, não quis entrar. Quem sabe fosse uma emboscada, quem sabe a partir de agora nunca voltemos a nos falar. E, quanto a isso, eu acho que o melhor a se fazer é aceitar. E foi assim que eu deixei o teu vagão partir sem mim - outra vez.
Mas há algo que eu preciso confessar: ontem à noite, nós dois chegamos muito perto, sim. E, meu bem, você não sabe o quanto a proximidade pode ser satisfatória em alguns casos. Esbarrei minha mão na tua, porém quanto a isso eu acho que você não se recorda (afinal você segurava uma garrafa de cerveja, quando um dia segurou a mim). E saiba que nesse toque tudo voltou: não só teu vagão à minha estação, como também a lembrança de um livro que ganhei de presente e sublinhei todas as frases que me lembravam você, os teus irmãos que tive de desenhar mentalmente pois nunca cheguei a conhecê-los (eu acho que me daria bem com eles), todas as vezes que um dia eu me contive para não te beijar e, no fim, um arrependimento tardio.
Então vem e me diz que tá tudo errado. Que essa briga sem sentido é tão infantil quanto o nosso afastamento. Estou esperando isso, estou esperando você. Como daquela vez, quando errei por ciúmes e você me perdoou. Como daquela vez que você deu um jeito para que eu chegasse em casa. Como daquela vez que o mundo pensou que um dia ficaríamos juntos 'para todo o sempre' - e eu também. Como daquela vez que o taxista olhou pelo retrovisor e viu o nosso beijo. Como daquela vez que você sentiu ciúme de mim e eu tive a certeza de que ter te deixado ir embora, fossemos bons amigos ou um casal apaixonado, foi o pior erro do mundo.

20 junho 2012

Estraguei a festa

Saí para dançar com o revólver no bolso. Decidi não me arrumar muito, pois esta noite quis ser eu por inteiro. Chegando na pista, descobri que não tinha acordado para satisfazê-la. Meus passos não eram coordenados, as luzes não sugavam a minha energia como deveriam. Então parei, sentei, conversei. Analisei.
Misturado com teu sangue, corria junto o álcool. E, quer saber, eu vira e mexe tenho de te ver assim. Deprimente, cambaleante, mascarado com a tua própria realidade. Logo eu, julgado por ti como aquele que te põe pra baixo, unicamente por eu não engolir a mesma bebida que tu. Não, meu bem, eu não sou bobo. Já deixei para trás minhas frustrações irrelevantes e foi singular a vez em que as afoguei na vodka mais barata. Diferentemente de ti, que é alegria passageira todo fim de semana.
Tu disse que eu não sei me divertir, e mal sabias que a minha diversão era te olhar nos olhos. Observar cada aro contraditório que havia ali, enquanto me perguntava o que de verdadeiro havia em ti. Queria te dizer para vir e falar na cara, porém lembrei o que meu pai sempre disse: 'Qual é a credibilidade do palhaço?'. Então, confiar em ti foi algo que já  larguei de mão.
Os rumores do dia seguinte foram os de que eu estraguei a festa. Tão óbvio apontar o mais fácil. Mas, agora me diga: por que foi que tu te importou? Noite passada nem tiro no peito eu te dei. Ao contrário. Livrei-te de mim, abri a cela, facilitei a tua fuga. Saibas, por favor, que para mim também foi um alívio, aquele suspiro de 'até que enfim'. E, no fim das contas, sabes pelo que tu deveria estar feliz? Semana que vem já tem outra festa. Tudo de novo, mas com uma vírgula de diferença: terão de procurar outro alguém a quem culpar.
Pois eu, assassino teu, não estarei lá.

19 junho 2012

Dieta forçada

Acordei hoje querendo iniciar uma dieta. Porém, diferentemente de todas as outras, esta só me priva de uma única coisa. Não, desta vez não estou evitando chocolates e o pão mais calórico com gergelim por cima. Também não estou precisando fazer exercícios físicos, aqueles mesmos que eu sempre odiei, pois agora é diferente. A minha dieta forçada me proíbe palavras.
Comecei então cortando vírgulas, pois decidi que ser direto é muito mais simples. Tá certo que precisamos de pausas às vezes, porém dietas não duram para sempre - e talvez por isso mesmo elas não sejam levadas a sério na maioria das tentativas. Em seguida, eliminei os pontos de interrogação. Isso mesmo, sem mais perguntas. Não preciso saber dos outros, e também não preciso saber de mim. Aquilo que realmente importa acaba aparecendo, de uma forma ou de outra, agora ou depois. Quanto aos 'porquês', nunca fui muito amigo deles. Apesar de eles também serem perguntas e, vez que outra, eu fazer grande uso, quis tirá-los da jogada porque quase sempre são o que estragam tudo. Se algo foi dito, não há o porquê de questionar o porquê - e isso já é confuso demais. É deste jeito que, aos poucos, tentarei rigorosamente omitir alguns travessões fora de hora, alguns parênteses que não vêm ao caso. Isso tudo na intenção de que o meu ponto final seja o melhor dos objetivos.
Então é isso, por sabe-se lá quanto tempo. Estou, a partir de agora, evidenciando o que me importa. Colocando em negrito os momentos que valem a pena. Com marca texto em mãos, estou destacando os sorrisos mais doces e as palavras que devem ser incluídas no meu dicionário. Por fim, decidi ficar com o que me faz bem: pontos de exclamção (uma surpresa é sempre bem vinda), reticências (ninguém sabe o que vem mais adiante) e corretivo (estamos sempre propensos a apagar aquilo que não agrada) foram os escolhidos. 
Quem sabe semana que vem eu já não esteja largando de mão esta dieta e procurando seguir alguma outra. Para um poeta, ter de calar-se é o mesmo que perder o instrumento de trabalho. É por isso então que estou fazendo trocas, escolhas e supressões. Sei que, aos poucos, descuidarei e voltarei a questionar, dizer o que penso. Até porque, de dieta ninguém gosta.

17 junho 2012

Sei lá


É uma droga quando você está dependente de alguém. Não bastasse você estar afim da maldita pessoa que nem mesmo sabe pronunciar o seu nome direito, você ainda precisa de respostas para prosseguir com esse seu plano bobinho de sétima série - continuar gostando dela e rabiscando vocês dois juntos em cada pedaço de papel, no caso. Você quer mesmo é saber se dali existe alguma chance de que o casamento de vocês, casa no campo e dois cachorros labradores vingue. E, quanto a isso, só há um jeito de saber: perguntando.
A conversa começa unicamente pelo fato de você ter criado coragem, pois se dependesse da tal pessoa perfeita vocês seriam mais mudos que paciente pós-cirurgia de retirada de amídalas. E aí, depois de você questioná-la sobre os seus gostos, é a hora de procurar assuntos secundários e triviais a fim de que a conversa não seja sepultada. Qual é, esta é uma chance tão ímpar de trocar algumas palavras que você fica tão nervoso e nem sabe do que está falando. Com medo de que a sua nova paixão vá embora e vocês nunca mais voltem a se falar (exclua aqui os seus sonhos), a primeira besteira encontrada é o que você dispara. E se arrepende logo em seguida. A resposta para o teu questionamento? Sei lá.
Então é isso? Tudo o que você sabe dizer? - são as perguntas que você faz em voz alta. Depois, exercendo o papel de neurótico que o amor nos impõe, você começa a querer acreditar que o sei lá dito pelo 'amor da sua vida' pode ter vários sentidos: Sei lá pode ser 'não-estou-a-vontade-de-pensar-nesta-resposta', sei lá pode ser 'eu-não-sei-que-filme-está-passando-no-canal-doze'. Sei lá pode até ser eu-não-quero-falar-com-você. Não, definitivamente não significa isto. Você descarta a última das possibilidades, pois se ela não quisesse conversar com você, nem mesmo teria respondido a tua primeira mensagem. E sim, definitivamente você sabe qual filme está passando no canal doze. E você perguntou por não saber o que falar. Na verdade, você já viu tantas vezes esse filme, sabe o final disso tudo. Então por que assistir de novo? Sei lá
Convencido de que ela jamais saberá o peso daquelas duas pequenas palavras, você desiste de dar continuidade à conversa. Respira fundo e procura algo para fazer, ignora o que acabou de acontecer. Em duas horas, você estará queimando não só os rabiscos de vocês dois, como também os ideais de uma casa no campo e dois labradores. Foi cedo demais para se pensar em uma vida ao lado dela. E agora você não consegue parar de se perguntar por que cair na real é algo tão chato.
A resposta? Sei lá.

O Menino Debaixo da Minha Cama - 2ª Edição


Sophie é uma adolescente de 16 anos comum, diferentemente de seus problemas. A garota de cidade pequena que mora em uma terrível casa que foi pintada de roxo não tem mais motivos para viver: A irmã está grávida do namorado motoqueiro, o bebê que a mãe tivera durante o segundo casamento a faz acordar todas as noites, e o irmão caçula... Bem, ele é o caçula. Vivendo de arrastar passos diariamente, a sua vida porém ganha um novo sentido ao conhecer Jonas, um introspectivo garoto que ela encontra em um parque abandonado perto de casa. Imersa em tantos novos segredos, perguntas sem respostas e, claro, no perigoso amor, descobre que o garoto é um pequeno fugitivo. Encontrando nele, então, um motivo para acreditar na vida, ela arrisca o inesperado ao escondê-lo debaixo de sua cama.

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10 junho 2012

O tal do novo alguém

Como você sabe quando está começando a gostar de alguém?
Quero dizer, não há nenhum aviso quanto a isso. Não tocam a nossa campainha para que acordemos e nos demos conta, não recebemos nenhum e-mail na caixa de entrada cujo assunto em si já é claro o suficiente: 'Você está apaixonado'.
Descobrir que há alguém novo em sua vida é uma tarefa tão simples que engana qualquer um. Sim, temos a plena consciência de que uma nova pessoa passou a fazer parte de nossa rotina. Ela está lá, então, tomando o lugar dela, assim como todas as outras anteriormente tomaram os seus. O que você não sabe, no entanto, é que não é somente isso. Aquela nova presença, aos poucos, expande involuntariamente o espaço em sua vida que tinha agarrado para si. Vocês conversam todos os dias, riem das mesmas coisas, trocam mensagens sobre o que estão fazendo. Nesse momento, meu amigo, tudo já foi por água abaixo.
Você está apaixonado. Não dá para escapar.
Quando o momento de refletir a respeito dos efeitos colaterais que aquele liquidificador de sensações instalado dentro de você anda lhe proporcionando, já não há o que negar. Ou você vai mentir que não fez download de todas as músicas que o tal do novo alguém lhe indicou? E quando você percebeu que estava sem créditos no celular e continuou a mandar mensagens confidenciando tudo, as quais ele nunca lerá? Nos últimos dias você tem analisado cada palavra que essa fresca presença lhe disse, a fim de compreender se não existe nenhuma vírgula de sentimentalismo recíproco por ali. Você está amando, e agora sabe disso.
Não, não existe nenhum e-mail além do turbilhão de compras coletivas na sua caixa de entrada. Ninguém lhe ousou dizer que andavas meio bobo, ridículo quase o tempo todo. Você vem cantarolando músicas novas que nem mesmo está a par da letra, porém elas têm sido a trilha sonora desse lance estranho e recente que te acertou em cheio. Bem, como eu disse, descobrir que alguém novo anda habitando os seus pensamentos mais do que o conveniente é tão simples.
Basta sentir. E, então, deixar o tal do novo alguém entrar.

08 junho 2012

O Retrovisor

Enfraqueci. Derrapei na curva mais fácil, da qual eu deveria ter saído ileso. Tu tinhas permanecido lá, em outra cidade, longe o suficiente para que eu pudesse te deixar para trás. E eu, que já vinha havia algum tempo me distanciando, esqueci que a nossa estrada sempre fora traiçoeira. Logo ali estava outro município, estado, país. E agora sinto-me um tolo por ter de confessar que a fronteira que me separa de ti eu não soube cruzar.
Amores são vãos, amores são recheados de empecilhos. Sim, contraditório. Tão tu e eu. E agora, que parei nesta estrada e olhei para trás - outra vez, pois esta não foi a primeira -, mal posso evitar o pensamento de que sentir tua falta foi algo que sempre esteve aqui. Por vezes silenciou-se este sentimento, porém agora avivou-se o necessário para me fazer pisar no freio. A vida tem lá, sim, o seu retrovisor. E para ele só olha quem quer - ou precisa.
Pensei então em regressar. A estrada de volta seria longa, porém continuar meu caminho sem ti seria o mesmo que guiar-me sem um mapa. Aterrorizantemente divertido - restava saber se isto me agradava. Por outro lado, recordei o porque de eu ter partido: saí da tua cidade porque lá o ar tinha teu cheiro. Nos restaurantes e danceterias, o teu sorriso ainda tinha deixado rastros de luz. Não obstante, teus longos dedos me prendiam, sendo que crime nenhum eu havia cometido. E, por fim, acabei por sair de ti porque eu tinha mais do que poderia segurar em meu peito. Sim, tu me destes o amor de uma vida - quando eu ainda estava tentando adivinhar se tinha uma. 
Saltei do carro e joguei-me ao chão. Farol vermelho no meio do nada. Se eu pudesse mandar um sinal de socorro, seria para que você viesse atrás de mim. Se ainda me amas, sana meu enganamento de que tu e eu  chegamos no fim da linha, que nunca daríamos certo. Quem sabe a distância não me fez perceber que te amar é a tarefa mais simples de todas. Porém, como te disse, enfraqueci. E daqui não sei sair. A escolha, então, se devo seguir ao norte ou voltar para o sul, depende de ti.
Ah, pensando bem, crime eu cometi sim: foi ter olhado no retrovisor.

07 junho 2012

Démodé

Trabalho até tarde neste velho emprego que não vai me levar a nada. Espero terminar o dia unicamente para passar no banco e sacar o que tenho, todas aquelas economias de alguns pares de meses. Jogo tudo no fundo da mala, cubro com roupas para não correr o risco - como se fosse conveniente usar esta palavra exatamente agora. Fecho a porta com cuidado e então estou na rua tão fria que o peito queima. Esta noite eu decidi ir atrás de ti.
Cruzo sinais vermelhos porque aqui fora não há ninguém - aventurar-se nas ruas depois das duas da manhã é tarefa de espírito (ou quem sabe nem eles existam nessa cidade esquecida?). Dirigindo contra o vento, organizo ideias do jeito que posso. Rabisco mentalmente alguns planos que certamente não darão certo, mas ainda desejo tentar. No porta-copos, as 200ml de café não conseguem oscilar tanto quanto eu e tu já o fizemos: dois jovens em busca do 'felizes para sempre', sem nem mesmo terem escutado o 'era uma vez...'. E eu ainda posso me lembrar de quando tua melhor amiga disse que eu não te amava de verdade. Mas que mentira! Ela não sabia era de nada. Enquanto todos julgavam a nós, tu habitava minha cama todas as noites. 
Até ontem. 
Porque, agora, eu e tu já nos tornamos démodé
Até esta noite.
Resgatar-te-ei para que saibas o quanto sinto tua falta. Estão aqui, então, todas as minhas economias reunidas para te visitar outra vez. Como vai você? O que tem feito? Sente aqui para conversar comigo. Quem sabe eu e tu não voltemos repaginados - dessa vez podemos ganhar novas cores, porém seguiremos a mesma tendência. Sei que saíremos de cena novamente, logo logo. É sempre assim. Porém, enquanto eu e tu estivermos na moda, faça com que a minha volta renda uma boa capa - o nosso amor estampado todo mundo vai querer igual.

03 junho 2012

Garotas de 12 anos

A mesa da cozinha hoje esteve vazia logo cedo, pois sendo domingo eu decidi manter o meu ritual de tomar café na cama. Não que bolacha recheada seja uma maneira muito correta de se começar o dia, porém o fiz. Beberiquei um gole daquele chá de frutas cítricas e troquei os canais da televisão como se comandasse tudo - controle remoto é a tentativa mais próxima de brincarmos de Deus. Só parei quando percebi que ali, do outro lado da tela, estava estampado um rosto tão familiar. Você.
Sorria e olhava para mim. Eu, atônito, cuspi chá e derrubei bolachas. Curvei-me para frente, permanecendo de joelhos em cima da cama. Quase colado na tela da televisão, tentei entender o que diabos você fazia ali, roubando o lugar do apresentador de programa de auditório dominical. O som que saía do aparelho eu não reconhecia, não sendo aquela a sua voz. Não, não podia ser. Fechei os olhos, espremi-os como criança faz quando afugenta pesadelos, e os abri novamente. Pronto, você havia desaparecido. 
Praticamente nu, corri até a sala sem nem pensar e deparei-me com minha família no sofá. Bom dia pai, como vai mamãe? Ei, espere. Havia mais alguém. De novo você, que ria junto à eles da minha falta de roupas. Sendo a timidez a última das minhas preocupações naquele momento, tentei imaginar como você havia entrado na minha casa. Até onde eu sabia, nós dois tínhamos brigado feio e minha mãe já até falava mal de você para a vizinhança toda, no intuito de não permitir que ninguém mais caísse na sua lábia. Ou nos seus olhos bonitos. Ou nesse sorriso que jamais vi alguém usando.
Pare! 
Saí porta afora, ignorando as queixas de meu pai. Cambaleei pela rua, girei no mesmo lugar, e aí foi que o desespero me possuiu tão forte que até poderiam criar uma sequência de O Exorcismo. Meus vizinhos, naquele momento, haviam derrubado suas caras feias e velhas para darem lugar a um rosto tão comum e odiado (será?) por mim: você. Sim, todos eles agora tinham cabelos loiros e olhos tão convidativos que até mesmo no escuro eu seria, de alguma forma, guiado.
Então é isso. Somente e assustadoramente isto. Meu relato de domingo a noite. 
Saiba que, por você, eu acabei enlouquecendo. Voltei no tempo e lhe trouxe de volta para mim. Uma vez estiveras presente em minha vida, e agora estás presente em pensamento. Tão forte que já me tornei uma daquelas garotas de 12 anos, que veem o "amor de suas vidas" em todos os rostos que cruzam seus caminhos. Por isso, aguarde as novidades. Muito em breve estarei rabiscando o seu nome por aí e escrevendo textos sobre minha loucura.
Espera...

01 junho 2012

Varrendo a estação

O dia nasce na vidraça do prédio vizinho. Sol bate na janela, perfura e adentra exclamando bom dia, mas ninguém vê. Meia dúzia de mendigos, até então os donos das ruas, recebem os mesmos visitantes de sempre: robôs programados a não sentir que estão em ótimo estado de operação. A única coisa que sentem, no entanto, é que hoje faz 11º graus e não mais 22º. A temperatura caiu, assim como a falta de escrúpulos para com as coisas simples.
No rádio aquela mesma voz de sempre relata os fatos da noite. Três mortes em bairros afastados, um pequeno furto no centro - pois lá existe vigilância, é claro. Enquanto isso, semáforo vermelho. A mesma cor que pinta o pano que nos cobre. Tons alaranjados matizam a manhã transfigurada* não só de Miguel e Cecília, e sim a de todos nós. Quem foi mesmo que disse que o céu não pode ser multicolorido? Essa é apenas uma questão lógica para os bons observadores.
Mas hoje pouco importa, porque hoje é sexta-feira. Foi uma semana abarrotada para ti, mas lembre-se que da mesma eu também vivi. E para mim ela foi tão boa. Tudo bem, hoje é dia de recompensa, porém nada me impede de que todos os dias sejam uma sexta-feira. Assim como as vestes de nosso corpo caem de moda,  o pensamento ancestral de que devemos basear-se em uma rotina também deve cair. Ontem era terça e no bar ao lado de minha casa tocava uma banda nova deveras promissora. Na quarta passava futebol na tevê, mas alguns canais depois vinha o teu filme favorito. E tu nem mesmo sabias. Tudo porque não era sexta-feira.
Agradáveis exceções rejeitam as quatro rodas e se movem com apenas duas. Mas ainda há um erro: as bicicletas circulam nos parques, em um mesmo circuito de uma paisagem só, repetidamente, quando deveriam estar nas avenidas. E, por falar em parque, um grupo de garis varrem as folhas das árvores que caíram ao chão. O outono chegou, mas deste jeito já vai embora. Não há sinal das folhas secas que o caracterizam, pois a prefeitura impõe que varram a estação. Assim, esconde-se em sacos plásticos pretos o que deveria estar nos gramados. A beleza simplista hoje já não tem relevância.
Quando cai a noite ninguém mais se esconde. É frio, é outono (só sei porque está no jornal), mas lembre-se que já é final de semana - o momento perfeito para qualquer fuga de realidade pessoal. Sabe que a noite até que ganha mais brilho desta maneira? Até porque surgem sorrisos que estiveram escondidos durante aqueles longos cinco dias. Porém, não tarda para que regresse a segunda-feira, e lá está o individualismo perambulando pelas ruas novamente. Resta saber quem varrerá a neve quando o inverno chegar.

___________
*Manhã transfigurada - obra de Luís Antônio de Assis Brasil, que tem Miguel e Cecília como protagonistas, publicada em 1982.

30 maio 2012

Chifre de Titânio

Quinze meses passaram desde que te conheci e insólitamente estou ao teu lado - talvez mais do que deveria. Circundeando meus olhares para ti, há alguém a julgar. E, bem, eles estarão sempre ali, acreditando que 'tu e eu' se trata de algo que apenas não deveria existir. Não desta maneira. Jogando minha cabeça para trás, sossegado em teus braços, enxergo o céu logo ali, o qual tu tratou de colorir. A nossa tela infinita, que andava meio branca, tomou cores e formas. Exatamente agora, enxergo tons confusos e nuvens em formato de ponto de interrogação.
Nessa estrada que tu e eu, um par de motoristas sem carteira de habilitação, decidiu aventurar-se, há curvas perigosas que tendem o incerto e atalhos que nos levam até lá - mas nos resta saber do que se trata esse destino. Olho para o retrovisor e vejo papéis de chiclete com um eu te amo rabiscado, anéis de faz de conta que simbolizam relação nenhuma, e até mesmo um par de sapatos que ficou esquecido por insistência minha - eu espero que tenha sido por isso. Tudo muito novo - uma contradição engraçada por nós dois nos tratarmos como velhos amigos -, e ao mesmo tempo tudo muito amedrontador.
Receio as vezes por infinitos motivos. Metade deles são estúpidos, fruto apenas de meus pensamentos em demasia. O que sobra, no entanto, diz respeito ao fato de que ainda existe uma barreira a nos separar. Esta que, sendo resistente o bastante para que até mesmo a minha vontade seja incapaz de quebrá-la, bloqueia a minha entrada. Teu chifre de Titânio - como tu mesmo resolvestes chamar - é para mim ainda aquele impasse que faz repensar. Tu deverias saber que não quero ter de abandonar o meu carro no meio dessa estrada, porém, deverias saber também que o que quero menos ainda é, na próxima curva, pluralizar a tua decepção.

29 maio 2012

Especialista de ti

E hoje me contaram que você anda ligando para ele. Dia e noite, madrugada e fim de semana. Os horários que antes eram tão e só meus. Certo, eu admito, ninguém me contou. Eu mesmo descobri. Sei que você vai me achar um louco insistente - repleto de imbecilidade, alguém desesperado que ainda gosta de você ao ponto de continuar investigando a tua vida. E, meu bem, você está com absoluta razão.
Então eu armei um plano: vou passar a te ligar o tempo todo. Há uma resistência aqui em falar com você, pois as sequelas que me causastes foram tão aparentes que nem sei se ainda te quero. Digamos então que é apenas um desejo meu de ter aquilo que não preciso. E, no caso, isso é você. Até porque se o teu amor fosse alimento, seria eu um sujeito subnutrido. Teu amor nunca cruzou meu caminho, dele eu nunca ouvi falar. Mas existiu algo entre nós, e negar isso é apenas um escapismo tão frágil quanto sempre fomos. O que me conforta, ao menos, é saber que uma ligação não irá superar. Nem duas, nem três. Tuas palavras pelo outro lado da linha devem sim, de certo modo, agradar quem as ouve. Pobre daqueles que acreditarão em tudo que você disser. Mas elas estão longe de ser tudo aquilo que me falastes. Ou melhor, tudo aquilo que tive de ler, traduzir e interpretar unicamente a partir de teus olhos. Eu, especialista de ti, o único que nunca recebeu ligação.
Não sei se você se recorda, porém não sou cético. Acredito mesmo em quase tudo. Porém, existe uma parte de mim tão cética que apenas não acredita que você me esqueceu. Eu sei que todas as vezes em que teu telefone toca, você pensa que irá ouvir minha voz. Não é um convencimento arriscado, muito menos um achismo. Eu apenas te conheço bem.

26 maio 2012

Boa noite

Na esquina de uma noite impetuosa esbarro em um abraço tão hodierno que o mesmo consegue me aquecer, proteger, segurar - ou qualquer outra função que um abraço pode ter. Despejo ali um pouco de ti, um pouco de mim. Nada de nós, pois quanto a isso eu ainda venho procurando. E Deus sabe quanto minha busca tem sido falha.
Logo em seguida eu entro em um táxi qualquer. Este, em questão, não possuí o cheiro da semana passada - aquele que sentimos quando dividimos uma corrida até as nossas casas. Nenhum frescor, nenhum vidro embaçado. Hoje, contudo, há sim companhia. Mas ela não se trata de ti. Então, para mim, resta pensar em que parte do caminho eu deixei tu dar meia volta, permanecer ali quando eu já havia ido embora, ou até mesmo ter deixado tu tomar outro táxi que não o meu. Essa noite traz silêncio, traz perda. Falta-me um beijo de despedida tão rápido que os olhos do taxista não podem acompanhar.
Derrubo meu corpo no sofá, fecho os olhos para evitar a escuridão presente na sala de estar, sem saber que está mais escuro ainda de olhos fechados. Bem, agora eu entendo. Tu e eu, um porvir fracassado. Nesse momento, então, meus pensamentos já dão mais voltas que as nossas línguas quando juntas, e para mim tudo parece óbvio. Os motivos, as razões. De segunda a quinta tu pensas em me encontrar, porém na sexta tudo é diferente. A carência tua vira querência por outrém - que, certamente, não sou eu. Então talvez eu seja mesmo essa parte chata para ti: o meio da semana. E, no final dela, tu queres se ver livre de mim. Fácil assim.
Creio que jamais terás a chance para contar quantas lágrimas por ti agora choro, pois em mim tu já morastes o tempo necessário - para um entendimento, um crescimento, e um arrependimento. Então até outro dia. Levantarei deste sofá com a certeza de que tentamos, porém apenas não deveríamos ser. E não fomos, não seremos. Melhor assim, quem sabe. Ou deveria eu voltar atrás, correr até o teu abraço (era nele que eu deveria ter estado esta noite), e tornar-me fim de semana para ti? Não sei. O meu medo, na verdade, é que você me queira como um feriado - alguém esporádico e fugaz. Quem sabe. Portanto, por enquanto, boa noite.

22 maio 2012

Dans

Petit danseuse
Mon sonrire n'est pas suffisant
Et maintenant je sais le pourquoi
Il se perd avec les projecteurs
Qui parfaitment dansent comme toi


(Tradução:)

Pequena dançarina
Meu sorriso não é suficiente
E agora eu sei o porquê
Ele se perde com os holofotes
Que perfeitamente dançam como você

20 maio 2012

Origami

    Resolveu partir cedo o sol de domingo
    No céu bicolor detentor daquela nuvem engraçada
    Tu e eu, ontem apenas conhecidos
    Hoje dividimos esse pedaço gelado de calçada

    Tudo ao redor cheira à cidade interiorana
    Calmaria que é oposto da minha feclidade de auto grau
    Cambaleando no ponto final que sempre me engana
    Quero vírgulas, reticências, etecetera e tal

    Sussurrar obrigados e pedir algumas desculpas
    Para mim isto nunca será considerado demasia
    Descubra-me hoje, ontem, e amanhã com perguntas
    Preencha tua boca enquanto tenho de mantê-la vazia

    Fator gostoso é esse de retardar o que desejo
    Deixar para amanhã, depois, ou sabe-se lá quando
    Os toques, entregas, e mentolados-achocolatados beijos
    Que venho de ti esperando, pensando... Pensando!

    Meu bem o que achas de mobiliarmos uma casa?
    Nem tintas temos para sujar as paredes inexistentes
    Quando tu ainda sonhas em voar e ter asas
    Anseio comprar o céu, fazer brilhar teu nome em estrelas cadentes

    Então desdobra-me, por favor, em infinitas partes
    Redobra-me em seguida, conforme te convir
    Faz de mim tua forma preferida, transforma-me na arte
    Que tu manterás presa contigo, jamais permitindo leiloarem por aí

16 maio 2012

Entrevista para a Rádio Fri Spit

Foto: Lucas Fagundes


Nesta segunda-feira (14), estive na Rádio Fri Spit, de Caxias do Sul, dando entrevista sobre o lançamento de 'Você Pode Guardar um Segredo?' no programa Sinopse. Na oportunidade, pude conversar com Aline Mapelli, Camila Valentini e Fernanda Aguiar. Falamos desde a história, criação, elaboração do livro, até à Bienal de São Paulo.
Ouça nos links abaixo as duas partes da entrevista:

15 maio 2012

Um mistério a ser desvendado

Pedro Guerra lança seu primeiro livro deixando um mistério a ser desvendado

A Internet tem sido um berço promissor para o surgimento de jovens escritores. Principalmente por meio de blogs, o compartilhamento na rede traz à tona talentos até então desconhecidos. Foi trilhando esse caminho que o caxiense Pedro Guerra, 20 anos, vem construindo narrativas e, agora, lança seu primeiro livro. Você pode guardar um segredo? será lançado no dia 17 de maio, quinta-feira, a partir das 19h30min, no Zarabatana Café.
O romance policial promete segurar a atenção do leitor até a última página. Para se ter uma ideia do jogo criado pelo autor, o prólogo é o epílogo, e vice versa. A obra, de 315 páginas e publicada pela Editora Baraúna (São Paulo), narra a história de Christine Reed, uma jovem que trabalha em uma loja de fotografia, no fictício Condado de Greenpack e, como renda extra, leva cachorros para passear. Com uma vida simples e sem emoções, tudo muda quando, no quarto escuro de um laboratório, ela passa a revelar imagens de um fotógrafo anônimo que, juntas, formam mensagens cifradas. Nelas, um segredo, que parecia ter morrido é ressuscitado.
Para entender a razão pela qual o seu segredo está em jogo, ela precisará descobrir quem se encontra por trás de tudo isso. Pedro convida os leitores a desvendarem o mistério junto com Christine.
Um aficionado pela autora britânica Agatha Christie, da qual já leu quase toda a obra, composta por mais de 80 livros, o acadêmico de Jornalismo e Letras revela que teve na romancista uma das fontes inspiradoras para escrever. Somado a um bom texto, que continua sendo a base para qualquer plataforma, seja na web 2.0 ou em um livro, Pedro ainda consegue explorar os recursos da Internet, onde  mantém seu blog há quase três anos.
“É nas palavras que o mundo se esconde”, destaca Pedro.

Sobre o autor
Pedro Guerra, libriano, 20 anos, redige como ele mesmo diz, “em escala industrial”. Também compõe, desenha, cozinha e fotografa. Faz faculdade de Jornalismo em paralelo com a de Letras. Natural de Caxias do Sul, começou a escrever com 12 anos.
Seu primeiro esboço literário, nunca finalizado, foi feito a punho em um caderno há oito anos. Já a sua primeira obra com início, meio e fim é O Menino Debaixo da Minha Cama, romance juvenil que despertou a atenção dos leitores de seu site. A obra foi disponibilizada para download no ambiente virtual, iniciativa que gerou feedbacks positivos que o incentivaram a continuar criando. Você Pode Guardar um Segredo?, sua primeira obra publicada fisicamente, tem a missão de projetar o autor para seu gênero preferido: romances policiais.
Desde novembro de 2009, o jovem registra suas crônicas e poesias em seu blog - http://www.resultadosdeumdiachuvoso.com -, que somava, até a primeira semana de maio, 140 posts. Pedro, que não desacelera nunca, adianta que finalizou a terceira obra, além de ter iniciado sua quarta trama literária.

Saiba mais
O que: Lançamento do livro Você Pode Guardar um Segredo?, de Pedro Guerra
Número de páginas: 315
Editora: Baraúna
Onde comprar: www.umsegredo.vai.la
Outras informações: www.resultadosdeumdiachuvoso.com

Entrevistas podem ser agendadas com a Assessoria e Comunicação (anahi.fros@gmail.com) ou pelo e-mail pedrguerr@hotmail.com, diretamente com Pedro Guerra.

13 maio 2012

Turista


Descobri que teu mar tem água doce
Quisera eu que meu ele fosse
Velejaria cômodo sem direção

Tua praia é descanso para minh'alma
Sombra e vento passivo que me acalma
Cais seguro para minha embarcação

Por vezes me queimas como água-viva
Mas balanço em tuas ondas feito gelatina
Quem disse que amar não é sinônimo de levitação?

Repouso no silêncio dessa tua orla
Sorrio no sol poente, e sorrateiro o peito desdobra
Para que caiba aqui tamanha excitação

Durante a lua minguante de noite tão fria
Maré arrebenta e judia da praia vazia
Sou turista teu até mesmo na escuridão

Baixe agora: 1º capítulo do meu livro


Conheça o livro 'Você Pode Guardar Um Segredo?', do autor Pedro Guerra, um romance policial que narra a história de Christine Reed, uma jovem que trabalha em uma loja de fotografia, no Condado de Greenpack. A jovem tinha uma vida simples e sem graça, até que começa a receber de um fotógrafo anônimo algumas imagens contendo mensagens cifradas que passam a fazer todo o sentido para ela. Nelas, um segredo, que parecia ter morrido, é ressuscitado.
Para entender a razão pela qual o seu segredo está em jogo, ela precisará descobrir quem se encontra por trás de tudo isso. Ao mesmo tempo em que tenta desvendar este mistério, Christine conhece John Gray, um homem que aparece com o intuito de preencher o vazio em seu coração. Mas será que ela deve confiar neste homem que surgiu na sua vida? Desvende este mistério e encontre os suspeitos junto de Christine.

“Christine concentrou-se nas inúmeras gotas de chuva que caíam contra o vidro, chocando-se com intensidade moderada. Eram tão estúpidas e burras, assim como ela. Vagavam livremente após soltarem-se das nuvens, e então acertavam o vidro em cheio, escorrendo depois, sempre no mesmo caminho. Não podiam ultrapassá-lo. Assim como ela. Seguindo no mesmo caminho após o choque contra o seu próprio ‘vidro’. Se pudesse ter o evitado…”*
*trecho extraído do livro





12 maio 2012

Estraçalhar a tua boca

Percorro avenidas desta cidade interiorana acreditando cruzar a orla de Copacabana. Caminho lenta e despreocupadamente pelo concreto todo cinza que, para mim, é tão macio quanto a areia dourada cobrindo a praia que em pensamento visito. Tudo está certo, não há nenhuma alteração para fazer. Em meu rosto há um sorriso - veja bem, mas que surpresa -, e dentro do peito um vazio que apenas não contesto, pois no momento estou gostando dele assim.
E aí tu passas. 
Tu passas fazendo graça, mas que desgraça!, e o vazio é tu quem matas - e sem querer me arrematas. Frágil, creio que este seria o adjetivo correto para te definir. Cuidado, pode quebrar. Então venha, eu quero tomar conta de ti. Prometo não embalar-te em plástico bolha, porém não deixar-te-ei sem proteção alguma. A partir de hoje, se quiseres, meus abraços serão os teus novos melhores amigos. Tu, composição de um metro e sessenta e um que desfila por esta praia fictícia, mal sabe que eu já desejo levar-te até a lua. E isso tudo por conta da boca tua.
Sorristes, porém em uma ocasião inédita não me atraí por isto unicamente. Foram então aqueles lábios que acredito serem recheados de açúcar... Chocolate branco tão gorduroso que poderia me satisfazer, nutrindo o desejo despertado aqui. Vem, deixe-me provar-te. Quero laçar-te neste fim de tarde, para assim quem sabe só liberar-te no amanhecer. Refém de minha querência, eu quero mesmo é estraçalhar a tua boca, tirar a tua roupa e te fazer entender. Compreenda quando digo que voz assim só ouvi de ti, que foi com este cabelo quase loiro jogado para o lado que me rendi, e que ao olhar eu percebi.
Que boca como a tua eu não vi nenhuma, porém, em suma, quero ela para mim.

06 maio 2012

Esfregar amor na sua cara

Está tudo bem, pode ir. Porém peço-lhe por favor para que bata a porta com força ao sair, pois preciso ter certeza de que você foi embora. Espero que tenha levado consigo tudo que te pertence, e... Não, isso é impossível. Toda a nossa casa já tem um pouco do teu cheiro de cereja e nos armários da cozinha ainda restam alguns pacotes do teu biscoito preferido. Sem falar do teu shampoo no nosso banheiro e do cachorro que gostava tanto de você. Assim como eu.
Quando fez-se silêncio, eu quis entender o motivo da sua partida, mas desta vez preferi agir com sensatez - quanto ineditismo para uma pessoa dilacerada. Hoje eu resolvi não chorar, e muito menos gastar o meu tempo imaginando aquilo que deveríamos ter sido. A verdade é que não fomos, não seremos. Então não há no que pensar. Acabou porque você quis, simples assim. Talvez eu não tenha doado a mim mesmo do jeito que você esperava, ou quem sabe eu nunca fui o que você realmente esperou. Tanto faz. Então eu vou é sair por aí, tomar uma cerveja mais gelada que seus sentimentos e rir por estar só novamente. Solidão, palavra que me assusta. Mas não será por muito. Depois de dançar no meio da festa mais descontrolada da cidade, eu ainda vou caminhar pelas ruas durante a madrugada gritando besteiras quaisquer. Tudo errado, tudo incomum, tudo tão não eu. Resolvi que serei um pouco daquilo que nunca fui, já que o que eu estava sendo não me levou a lugar nenhum.
E eu encontrarei alguém, caso você queira saber. Não hoje, pois estou deixando de lado quem sou de verdade. Mas amanhã, ao voltar para a casa muda que você fez questão de deixar, vestirei o meu uniforme de mesmice para que batam na porta outra vez. Assim como você fez. E, agora, desejarei piedosamente para que não seja você. Sairei então com novas pessoas, analisarei novos gostos e rostos. Beijarei outras bocas e irei me entregar para o desconhecido - esperando que venha a se tornar meu futuro. Deste jeito, aos poucos, passarei a preencher esta casa com um pouco daquilo que nunca se fez verdadeiramente presente: amor.
Quando este dia chegar, quero dizer, quando eu não mais precisar manter você presa aqui dentro, esperarei apenas mais um minuto para aniquilar contigo de uma vez por todas. Antes eu irei querer lhe mostrar que, sim, eu também sei dizer adeus. Mas, principalmente, eu vou esfregar amor na sua cara, desejando para que você se arrependa. Criancice, eu sei. Porém, ter batido aquela porta sem nenhuma explicação ainda foi a maior de todas as infantilidades.

01 maio 2012

Caindo fora

Bem, então é isso. Creio que me tornei mais estúpido do que poderia. Meus olhos querem fechar, mas a tua mão segura o meu queixo e, tão longe e tão perto, escuto tua voz chamando por meu nome. Nos meus lábios um pouco de água que eu nem mesmo quero tomar. Esforço-me o quanto posso para não abaixar a cabeça, até porque não posso me render - não mais uma vez. E então você continua ali, logo em frente, observando a minha decomposição que é fruto dessa querência incompreendida. E isso dói tanto. Eu digo, ter você na minha frente e não ao meu lado.
Quando recupero-me, percebo que foi só por um curto tempo, pois lá estou eu, afogado no teu colo, chorando por nenhum motivo plausível. Ei, eu já fui mais forte. Precisar tanto de alguém nunca foi característica minha - então por que você mudou isso? Por favor, dessa vez não levante meu rosto. Deixe-me chorar de olhos fechados, soluçando como criança sem doce enquanto eu sei que você não se importa. Não, meu bem, eu sei que não. Provavelmente você está olhando para os lados e rindo para alguém, enquanto se pergunta mentalmente como permitiu que tudo chegasse a esse ponto. Não, você não precisava disso. Não novamente. E agora, escrevendo isso apenas com o intuito de que eu consiga me sentir um pouco melhor - expulsar o que guardo é a melhor maneira de me livrar daquilo que não deveria ter acontecido -, começo a rir. Lembro que, quando nos conhecemos, nunca cogitei gostar de alguém como você. Eu e tu? Pura falta de combinação - entre nós faltava harmonia. Se colocados juntos, apenas seríamos decoração de mau gosto. Mas, depois de tanto pensar, eu quis tentar nos redecorar. E certamente falhei. Saiba que doeu pedir por um beijo e não recebê-lo. Saiba que eu nunca quis ser apenas teu amante de final de semana. Saiba que sim, eu esperei ouvir aquelas três palavras. E, por fim, saiba que eu estou caindo fora.
Minha estupidez passou dos limites. Deixei que você testasse a minha ignorância até o ponto que eu enfim pudesse perceber que doei tanto de mim para ti que acabei ficando sem nada. Destruí a mim mesmo, implodi o meu ser que agora vou procurar reconstruir. Obrigado, devo dizer, por não ter me deixado fechar os olhos naquela noite. Provavelmente eu teria dormido para sonhar com você - e eu estou cansado disso. Hoje já existem outras pessoas fazendo o que tu fez. Quer dizer, tentando abrir os meus olhos. Porém, de agora em diante, será apenas para compreender que ter apostado alto me fez perder tudo. Menos o meu amor por ti.
Eu disse que sou estúpido.
Mas, aos poucos, eu estou caindo fora.

20 abril 2012

Pizza & Guaraná

Estava eu me dirigindo para mais do mesmo: rendia-me ao amor como uma presa sem poder de fuga. É, eu tropecei na armadilha plantada por sei lá quem. Naquela mesma semana em que encontrei meus projetos futuros todos atrelados a ti, percebi que havia voltado a cair naquele abismo ilusório onde minha realidade sem ti já era algo que simplesmente não me convencia. Em nós dois eu via o futuro sem nem conhecer o teu passado. E, quanto a isso, eu tampouco me importei. O que me valia, na verdade, era a certeza de que tu me fazias bem - e ninguém gosta de enxergar o que é real quando se encontra apaixonado. Assim, o estrago já estava feito, e eu sabia que cedo ou tarde iria me machucar por ter permitido um pouco de amor mais uma vez. Eu só não pensei que, tão rápido, quem me machucaria serias tu.
Acabei por descobrir quem tu eras, e desta vez nem tive tempo de que isso fosse feito por minha própria conta. Abusastes da sinceridade, então antes de pensar que me feristes, preciso lembrar que tu me salvaste de ti mesmo. Deste a mim a carta branca para decidir então o que fazer, e novamente um erro teu: colocar escolhas nas mãos de librianos é sinônimo de não se esperar muito. Mas, bem, tentei pensar um pouco naquilo que seria uma melhor pedida. Naquele momento, eu e você poderíamos ser tanto pizza & Guaraná, quanto veneno e corpo fraco. Sim, decidir entre o bom e o ruim é algo tão fácil - se você souber com qual está lidando -, mas eu nunca fui muito bom em adivinhações. Então como saber se eu poderia te perdoar, quando nem mesmo havia vontade para tentar?
Sim, tu estragastes tudo. Depois de cair na tua emboscada e enroscar-me em teu amor, tu foste lá e tirastes tudo. Tu me proibiu a ti mesmo, porém eu nunca pedi por isso. Mas, sabe, creio que por ti eu lutaria. Antes que eu mude de ideia, vem. Ou melhor, volta. Aproveita este meu momento, que nada mais é do que um reflexo dessa 'idiotização' que o amor nos proporciona, e cai também nesse abismo para que, juntos, talvez consigamos sair. Sem ti eu não consigo, e contigo - no momento - não me soa tão inaceitável assim. Então, como prova de minha estupidez (maldito seja o amor!), esqueça o veneno e deixe-me nos transformar unicamente em pizza & Guaraná?

16 abril 2012

Medo de quê?

Estou com medo - diria eu se estivesse em uma consulta com algum psicólogo. Mas... Medo? Medo de quê? Bem... Eu não tenho me reconhecido. Estou com medo é de mim mesmo. Quer dizer, eu hoje acordei e em questão de minutos estava dançando em meu quarto ao som do blues que vinha do apartamento de cima. Girei e girei enquanto sorri. Isso tudo com direito à bis. Já durante a tarde, assei um bolo com tanto açúcar que qualquer diabético não suportaria. Acho então que comentar sobre ter finalmente deixado o mau humor de lado e passado a cumprimentar até mesmo o poodle com laço de strass da vizinha do décimo primeiro seria o bastante para comprovar a minha loucura. Então me diz, doutor, qual é o meu problema. Transtorno Bipolar, Esquizofrenia ou seja lá qual for o nome que estão dando agora? Diga logo qual é o meu desvio mental que irei de imediato comprar todas as pílulas caras que irão pesar no meu orçamento mensal.
Mas não, o doutor nada me diz. Até mesmo porque eu não fui a doutor nenhum - e aí está outra prova evidente da minha falta de lucidez. E agora o que fazer? Recorro em desespero ao espelho, observando aquele garoto magrelo que sempre pode emagrecer um pouco mais. Hm, este ainda sou eu. Olhos pequenos e lábio inferior protuberante. Tórax largo e pernas finas. Então qual é o diabo do meu problema?! Sem hesitar pego o telefone, digitando rapidamente os números que já sei de cor. Alô, por favor tente me salvar. 'Qual é a emergência, senhor?' - pergunta a moçoila eficaz da Brigada Militar. Espero. Penso. Procuro a resposta. Ah, eu estou diferente, minha senhora. Não é de hoje que não me alimento direito e que rabisco o mesmo nome em qualquer pedaço de papel. Quando não na minha própria pele. Tenho dormido pouco, pensado muito. Mas eu... Eu estou feliz. E creio que como nunca. Estou sorrindo para as coisas mais idiotas da vida e nem sei o porquê.
Após escutar o meu desabafo, dei-me conta de que ela não poderia me ajudar. Policiais prendem, atiram e correm. Eles não receitam remédios ou resolvem dar uma de melhores amigos por telefone. Porém, para a minha surpresa, do outro lado da linha a moçoila estava a rir. Sim, ela continuava ali. Do que estás rindo? O que há de errado comigo? - perguntei em um desespero final. 'Meu senhor, desculpe-me a indelicadeza, porém não há nada de errado com você'. Haha, mas quanta graça. Como se eu estivesse em perfeitas condições. Não, eu não estou normal. Não está tudo bem. Já ia eu reafirmar isto para ela, quando a policial disse aquilo que eu nem mesmo havia possibilitado: 'Senhor, você está apaixonado'.

Eu gostaria que tu soubesse (tradução)

Hoje, ao acordar na cama, descobri que tua alma já não aquece mais nosso reino de apenas um par de noites. Nenhum sorriso para acalmar o meu ser, nem tampouco aquelas palavras sussurradas que chamavam a mim para junto de ti. Estúpido, como eu fui um estúpido! Agora penso que poderia ter guardado silêncio e ficado totalmente vulnerável para que tu pudesses me sequestrar de uma vida que nem mesmo eu soube como viver. Na noite de ontem, era tua voz que meu corpo reconhecia e entendia como a senha correta para um livre acesso teu. Tua boca no meu ouvido, pedindo que te olhasse enquanto eu fechava os olhos. Sim, eu sei que te quis evitar para que o pensamento de te ter não se tornasse algo cotidiano. Não gostava de sonhar que podería te ter se te ter não era por toda uma vida. Te queria como o pássaro quer a liberdade. Te precisava como a lua precisa das estrelas para manter-se iluminada. Te amava como os apaixonados de um filme com final feliz.
É tarde demais até mesmo para pensar em um retorno. Não quero maltratar meus sentimentos uma vez mais, e creio que você não quer se maltratar com a ideia de que poderia um dia ver a mim como teu futuro. A realidade é que já não encaixamo-nos mais porque somos peças de quebra-cabeças diferentes. Aprendemos com o tempo que aquelas noites foram apenas um pouco daquilo que nunca deveria ter existido. Provar-te foi meu pior erro, pois hoje ainda te desejo. E quem sabe por quanto mais? Não, não. Que difícil é deixar escapar por tuas mãos o mesmo que um dia foi teu. Já te segurei tão forte que imaginei que nunca mais te soltaria. Contudo, hoje, o que tenho de ti é somente o que guardei para o caso de perder-te. E, sim, eu te perdi. Resta saber por quanto tempo ainda terei este estoque de você.
Dói, meu amor. Não ver-te me dói. Mas eu gostaria que tu soubesse que fostes a maior parte de tudo o que eu já quis ter. Tu foi a lança que golpeou a mim, o alvo distraído. Mas, por mais forte que seja o disparo, sempre a lança cai. E é inegável não lembrar que a lança deixa um grande buraco no alvo. Por conseguinte, eu gostaria que tu soubesse que não, já não te amo exatamente como amei. Te quero por umas noites outra vez, sim, certamente. Mas agora, deitado nesta cama, imaginando como seria se ainda estivesses aqui, preenche-me a certeza de que somos melhores amantes do que apaixonados. Então, agora que tu se foi, perdoa-me por não ter abraçado teu corpo aquela noite. Eu gostaria que tu soubesse que desejo beijar-te uma vez mais. A última.

15 abril 2012

Me gustaria que supieras

Hoy, por despertar a la cama, encontré que tu alma ya no calenta más nuestro reino de sólo un par de noches. Ninguna sonrisa para calmar a mi ser, ni tampoco aquellas palabras susurradas que llamavam a mi para junto de ti. Pendejo, como yo fui un pendejo! Ahora pienso que podría haber guardado silencio y quedado totalmente vulnerable para que tu pudieras me secuestrar de una vida que ni mismo yo supe como vivir. En la noche de ayer, era tu voz que mi cuerpo reconocía y entendía como la contraseña cierta para un libre acceso tuyo. Tu boca en mi oreja, mendigando que te mirasse encuanto yo cerraba los ojos. Si, yo sé que te quis evitar para que lo pensamiento de tenerte no se covertise en algo diario. No me gustaba sueñar que podría tenerte si tenerte no era por toda una vida. Te quería como el pájaro quiere la libertad. Te necesitaba como la luna necesita de las estrellas para mantenerse iluminada. Te amaba como los apasionados de uma película con final feliz.
Es demasiado tarde incluso para pensar en regresar. No quiero maltratar a mis sentimientos una vez más, y creo que usted no quiere maltratarse con la idea de que podría un dia ver a mi como tuyo futuro. La realidad es que ya no encajamonos más porque somos piezas de rompecabezas distintos. Aprendemos con el tiempo que aquellas noches fueron sólo un poco de lo que nunca debería ter existido. Probarte fué mi peor error, porque ahora aún te deseo. Y quién sabe por cuanto más? No, no. Que difícil es dejar escapar por tus manos lo mismo que un dia fué tuyo. Ya te sostení tan fuerte que he imaginado que nunca más te soltaria. Con todo, hoy, lo que tengo de ti es solamente lo que guardé para el caso de perderte. Y, si, yo te perdi. Queda por ver cuanto tempo aún tendré esta mercancía de ti.
Duele, mi amor. No verte me duele. Pero me gustaria que supieras que usted fué la mayor parte de todo lo que ya he querido tener. Tu fuíste la lanza que golpeó a mi, el blanco distraído. Pero, por más fuerte que sea el disparo, siempre la lanza se cae. Y es innegable no recordar que la lanza deja un gran agujero en el blanco. Por consiguiente, me gustaria que supieras que no, ya no te amo exactamente como he amado. Te quiero por unas noches otra vez, si, por supuesto. Pero ahora, acostado en esta cama, imaginando como sería si aún estivieras aqui, llename la certeza de que somos mejores amantes que apasionados. Entonces, ahora que te fuíste, perdoname por no tener abrazado tu cuerpo aquella noche. Por lo fin, me gustaria que supieras que deseo besarte una vez más. La ultima.

12 abril 2012

Metade romance, metade drama

Tu, que não és fogo nem pedra
Não queima nem me quebra
Abusa do silêncio a fim de me atormentar


Você, que da realidade me acorda
Insiste naquela mesma história
De que amor não se pode inventar


Vós, a quem falta iniciativa e coragem
Menos mentira e mais verdade
Abra uma exceção antes de tardar


Ele, que agora rapidamente te tira de mim
Sabendo desde o início o quanto te quis
Para que possa sem pena alguma espalhar


Que eu, parte cômica desta trama
Metade romance, metade drama
Tornei-me personagem secundário sem reparar

10 abril 2012

Teus dedos

Metade da madrugada e continuo a observar. Meu bem, o olhar aqui é cauteloso e não deixa nada escapar. Vigia de canto, fotografa os momentos mais interessantes. Olhos meus viciados em cuidar cada curva de ti. E aqui de onde estou nada deixo passar. Existem movimentos que eu não aguento, existem situações que eu gostaria de evitar. Analisando teus dedos em silêncio é tão fácil de discernir. Enquanto eles agarram algo que não sou eu, estou aqui como tolo mendigando um olhar de ti.
Então creio que estão todos a rir de mim. Pobre rapaz, mal pode compreender. O amor de ontem já virou passado, e o de hoje é preciso manter. Mesmo que não queira, mesmo que não seja suficiente. Mas teus dedos eu gostaria de tocar novamente. E agora eles enlaçam outros. Estes mesmos dedos que já percorreram vagarosamente o meu corpo do início ao fim, que já massagearam meus lábios e cravaram em meu peito como tiro de estopim. Você se recorda de quando teus dedos foram os únicos capazes de me calar? Era uma noite fria como a de hoje, porém naquela você estava lá para me segurar.
Machuca saber que se foi. Tornar-se apenas lembrança nunca foi o que desejei de ti. Porém, agora vendo teus dedos digitando mensagens para outro, o meu único querer é fugir. Por favor, dê-me um tempo para respirar, sei que estás longe mas por que então continuas por perto? Crava uma estaca em nós dois, cauteriza a ambos, acaba logo com esse nosso futuro incerto. Imploro-te que se afaste, mas que seja de imediato. Não quero ver-te mais, talvez apenas por hoje, quem sabe um pedaço de amanhã também. Na verdade eu não quero é ter de morrer no terceiro ato.

06 abril 2012

Maldita hora

Meia noite e eu espero. Luzes apagadas e um silêncio proposital. Não fecho os olhos pois temo acordar já no dia seguinte, e prometi à minha consciência que conversaríamos hoje. Então eu estou aqui, na quietude de meu quarto transformado em sala de espera. Vem e me explica como vai ser, pois para mim ainda não ficou claro. Fala baixinho que o teu ciúme é assim e não vai mudar. Eu lhe direi sem nem recear que gosto muito dele. Enquanto tu percorre o meu corpo com o teu dedo indicador, ouça as minhas reclamações. Meu bem, eu amo demais, sinto mais do que deveria. Demonstro tudo tão descaradamente. E eu preciso de uma resposta, um sinal de fogo. Devolva-me o que te dou, mostre-me um pouco de você também.
Quando o teu dedo para em meus lábios - o sinal claro para que eu cesse com as palavras -, fecho os olhos pela primeira vez. Espero novamente, quase petrifico-me no mesmo lugar. Essa cama de solteiro que agora serve para dois será testemunha mais uma vez de como eu sou uma presa tão fácil para ti. E é aí que a tua boca chega devagar, cumprimentando a minha em uma saudação melodiosa. Eu sempre soube que elas se encaixavam tão bem, até mesmo quando eu não podia prová-la. Dançando juntos nós perfuramos a noite e a transformamos em madrugada. Nessa hora dedos já se tornaram mãos e os nossos corpos enroscam na tentativa de se completar. Compõem-se então a vontade. Nós, as duas peças de um quebra cabeça recomendado para crianças acima de três anos. Tão fácil de montar.
Ar quente, aos poucos não consigo mais respirar. Mas de novo estás lá, em prontidão para me socorrer. Respiração boca a boca. Peito contra peito. Batidas cardíacas aceleradas. A minha pele reconhece a tua e queima em uma vontade indubitável. Coleciono em meu interior partículas de ti. Roubo a cada segundo algo que me agrada, sem nem pensar que ainda não tivemos uma conversa. Pare, pare de me beijar. Estou bravo, não quero prosseguir com isto. Precisamos esclarecer essa relação, porém isso se torna impossível quando cravo as minhas unhas nas tuas costas, deslizando-as na intenção de provocar uma dor satisfatória. Percebo então que esse é o teu jeito de se doar para mim. Tua pele nutre meu ser do mesmo jeito que te supro com amor. Está aqui a nossa troca, é assim que funciona. Maldita hora que eu escolhi para conversar. Quem sabe então não deixamos aquela discussão para amanhã. Até lá, por favor, mantém a tua boca na minha.

01 abril 2012

Carrinhos de supermercado

Estava comparando o preço entre Trakinas e Passatempo. Sempre gostei das duas, então o meu critério de desempate se vale a partir da inflação. Bem, acho que hoje a primeira levou a melhor. Coloquei dois pacotes no carrinho e dirigi-me até o outro corredor do supermercado. Parei em frente a prateleira de massas. Droga, essa era a que eu e você costumávamos comprar todos os finais de semana. Mesmos ingredientes, diferentes molhos a cada vez. Uma receita minha e tua. Estiquei o braço para pegar um pacote, porém pensei antes de fazê-lo - algo inédito para mim. Hoje eu decidi não levar um pouco de você para casa.
Mudei logo de corredor para que nenhuma lembrança nossa pulasse do fundo da piscina de minha mente. Afoguei todas para que elas lá permanecessem, presas com âncoras mais pesadas do que a minha vontade de te ter de novo. Brinquei com o carrinho de supermercado que controlava, pois esta é uma das únicas coisas que me dão o direito de controlar mesmo, e confesso que acabo virando uma criança com ele em mãos. Tanto que corri mais do que deveria e só o parei quando atingi alguém. Olhei para cima, pronto para me desculpar, e a minha vítima era você. Um acidente então nos uniu outra vez, mas a batida não foi forte o suficiente para livrar você de mim. Disse o seu nome por instinto, e você apenas respondeu com um olá típico. Eu sempre os odiei. Mas, para a minha surpresa, as tuas mãos não traziam um produto que continha preço, propaganda e embalagem atrativa. As tuas mãos seguravam um outro alguém.
Olhei para a tua nova companhia e mentalmente procurei acreditar que se tratava de apenas uma amizade. É claro que é. Estamos falando de um final de semana, e vocês dois apenas decidiram ir juntos ao supermercado para comprar algo para passar o dia. Mas... Espera aí. Sabonetes, produtos de limpeza e comida congelada? Isso na mão da tua companhia é uma lista de compras? Eu mal pude acreditar. Você já estava dividindo a sua pasta de dentes enquanto eu ainda estava queimando todas as fotos que tiramos juntos - e as apagando antes que o fogo atingisse o seu rosto perfeito, é claro. Ei, espere mais um segundo, aquilo no canto do carrinho de compras de vocês dois é um pacote da nossa massa? Quem você pensa que é para reproduzir a nossa felicidade com outro alguém?
Sorri em desespero enquanto puxava o meu carrinho para trás. Desviei de ti assim como tu fizestes quando me deixastes. Lancei-me uma última vez no teu par de armadilhas oculares que em tantas noites me chamou para a cama sem nem mesmo tu precisar abrir a boca. Neste momento tentei imaginar se a nova parte de você já havia conhecido o teu irmão caçula e o conquistado como eu o fiz. Pensei se ela deu, ou vai dar, o melhor dos presentes de aniversário - pois eu sei que o dei. Talvez ela nem mesmo saiba que você gosta de bastante pimenta nessa massa que vocês, a partir de agora, irão preparar juntos. Você já contou sobre ele para a sua mãe? Pois eu não estou muito certo de que a minha antiga sogra irá gostar dele tanto quanto gostava de mim. Sem querer parecer o teu melhor ex amor, é claro. Mesmo tendo sido.
Dirigi-me para o caixa, e enquanto fui colocando os produtos na pequena esteira rolante, observei o estrago que fiz. O chocolate que escolhi foi aquele que você me deu de presente em nosso primeiro encontro; o quilo de frutas foi você quem me disse que eu deveria aprender a comer para o meu próprio bem; e até mesmo aquele pacote de Trakinas foi você quem me ensinou a gostar - pois uma vez eu nem mesmo curtia biscoito recheado. Mais alguma coisa?, perguntou a menina cansada trabalhando no caixa. Olhei para tudo, olhei para ela. Saí correndo dali. Como eu já disse, hoje eu decidi não levar um pouco de você para casa.

(Crônica premiada no 46º Concurso Anual Literário de Caxias do Sul - 2012)

30 março 2012

O clichê que você procura

Passou por mim e nem viu. Continuou caminhando com foco no que estava lá em frente, pois certamente se tratava de algo com mais valor do que eu. Eu, prostrado logo ali. Perto, tão perto, desejando um simplório olhar. Torcendo para que o teu pescoço se torcesse. Vire, olhe para o lado. Note que estou aqui, bem aqui, atônito em um silêncio tão eloquente aos olhos de qualquer um - menos aos teus. Porque não me olhas, não me notas, não caminhas até mim?
Pois bem, agora já passou. É tarde da noite, a noite já tarda, e eu não consigo controlar meus próprios pensamentos. Sai, sai de mim. Vai por aí. Vaga na escuridão das três da manhã e continue a caminhar em direção aos teus objetivos. Dane-se, eu não me importo se não estou fazendo parte deles. Mas não! Não, não vá. É tarde, e a madrugada embala o perigo. Não quero que te firam, pois eu não saberia ter você pela metade. Quero-te por completo, e de preferência agora. Deus, como sou uma contradição de batimentos cardíacos acelerados!
Nas mãos trago café. Isso me ajuda a enfrentar o dia sem ti. Desde cedo, quando te vi. Mas é só isso, é só café. Não há cigarros ou filmes em preto e branco passando na tevê. Não sou mais um clichê do século atual. Eu não tenho tatuagens quaisquer, o meu cabelo não segue a tendência e não existem furos em mim - sejam lá quais forem os piercings que estão usando nos dias de hoje -, além do furo em meus olhos. Aquele mesmo que você não preencheu. E, ei, espere um pouco. Talvez você não me note, olhe, ou me tome como parte do teu caminho exatamente por conta disso. Eu não sou o clichê que você procura. Quanto descaso então eu precisarei para entender que é uma vergonha eu procurar você por aí?

28 março 2012

Chá de Maçã

Noite irrelevante de quarta-feira e lá fora chove forte como em um aviso para que ninguém saia de casa. Só por hoje as ruas precisam de um descanso, querem ficar sozinhas. O que resulta, então, é apenas o som baixo da água encontrando o paralelepípedo e um pouco de calmaria - mas que contradição ela existir em meio a uma tempestade. Já aqui dentro, eu danço sobre as horas. Brinco com elas como se fossem minhas amigas. Porém, sempre que volto o olhar para o relógio, muito já se passou. Para manter o corpo quente, um pouco de bebida. Eu nem mesmo gosto de chá de maçã e estou tomando.
Não sei exatamente onde foi que eu perdi um pouco de mim. Pensando agora, creio que talvez tenha sido depois de lhe conhecer, porque durante a nossa instabilidade mútua eu tive de mudar. Certamente eu cresci ao teu lado, mas quando te vi batendo aquela porta, a queda já era inevitável. Foi como ascender tanto e perder o controle. Choquei abruptamente com o nada que tanto me machucou e, após olhar para os dois lados, tu não estavas lá como o prometido. Tão óbvio que eu nem quis acreditar. Tinhas ido embora, mas acostumar-se com esta ideia me parecia algo tão complicado que beirava o impossível.
Mas eu superei. Na verdade, eu lhe superei, e nisso há uma grande diferença. Voltei a sorrir timidamente, aos poucos para que ninguém pudesse perceber que eu já respirava sem o auxílio de tua presença. A minha rotina então precisou procurar novos ambientes, cheiros e indivíduos, a fim de que tudo que estivesse ainda impregnado com um pouco de ti não fosse revisitado. Depois que lhe conheci, ou melhor, depois que lhe perdi, mudei muito e eu quero que saibas disso. Mas há uma parte de meus sentimentos que permanece imutável - aquela que me faz lembrar de ti. Por mais que eu fuja das recordações, ainda estás por toda parte. Tentar parecer forte e renovado sempre foi uma característica minha, e agora isso ainda permanece aqui comigo.
Na verdade eu acho que nunca vou te tirar de mim por completo. É tolo persistir com a ideia, pois muito  significastes, e não sou eu quem irá afastar o pensamento de que ainda deveríamos estar juntos. Sei que isso não é possível, sei que 'nós dois' não existe mais. Apagaram eu e você, riscaram e passaram corretivo por cima. Meu interior não grita teu nome com tanta euforia quanto antes, porém eu sei que ainda posso te encontrar perdida nas esquinas de meus sentimentos. E, veja só: eu nem mesmo gosto de chá de maçã e estou tomando. Eu nem mais te amo e continuo te esperando.

26 março 2012

Visita da madrugada

Quase duas da manhã e batem na minha porta. Segunda-feira, lá fora cai o mundo. Quem é? Pergunto agora. Mas ninguém responde. Recuo alguns passos, retiro de cima da lareira a velha espingarda. O mundo de hoje em dia é perigoso, e quanto a ele você precisa se proteger. Caminho em lentidão, questiono novamente quem deseja me ver a esta hora da noite. Por favor, anuncie-se. Quem é você e o que deseja? Porém nada. Nem ao menos uma saudação qualquer.
Empunho minha arma, protejo-me para com o desconhecido, e então aproximo o olhar na pequena cavidade em minha porta. Observo o outro lado em silêncio. Chove muito, a tempestade em plena turbulência. Mas no meio de tudo isso ainda existe a calmaria. Alguém esperando por mim com um sorriso dúbio, de pele tão fantasmagoricamente pálida. Olhos frios como a chuva. Eu reconheço de imediato, e isso é o bastante para que eu destranque a porta sem nem recear. Encaro a minha surpresa e agradeço. Enfim você por aqui, obrigado por aparecer.
E então convido para entrar. A minha visita da madrugada. Fervo um pouco de água, passo um café forte para nós dois. Sirvo e sento no sofá logo em sua frente, temendo pela primeira vez pelo que pode acontecer. Conte-me um pouco sobre você, foi o que perguntei. Depois de uma risada, a resposta vem: Mas você me conhece tão bem. E é aí que eu prendo um riso de obviedade. A companhia está totalmente certa. Mas então, diga-me para que veio. Espero um pouco, beberico a água preta que aquece meu interior. Pois bem, vim para lhe fazer feliz. Pensei que estivesses me procurando por todo esse tempo. Engano meu? Balanço a cabeça em negação. Não, não há engano algum. Eu estava lhe esperando.
Cruzando a sala vem então o amor de minha vida sentar ao meu lado. Um pouco atrasado, mas penso eu que na hora certa. Em silêncio dividimos uma xícara de café - a primeira de muitas coisas a serem divididas a partir de então. Seja bem-vindo, digo eu. Nós dois sorrimos.

20 março 2012

Ordens do palhaço

Tranca a porta e apaga essa luz. Faz silêncio sepulcral, mas só no primeiro momento. Bate na minha cara, diz que estou errado e que tu ainda é o que eu mais preciso. Droga, isso que tu és. Uma droga.
Joga meu eu na parede sem piedade nenhuma. Grita em questionamento se eu acho que és um palhaço. Responderei que não, certamente, pois palhaço sou eu. E, enquanto eu lhe explico o porquê, arranca a minha roupa e tente me domar. Vamos, eu duvido que você consiga. Está bem, está bem, eu conheço sua capacidade e isto será fácil para você. Domar-me é jogada antiga para ti. Eu só estou te provocando mesmo.
Perceba meus lábios, eles levam pequenas mordiscadas a todo momento. Então vem e passe a fazer isso você. Eu lhe desafio. Cala minhas palavras em disparada, beija essa boca que já sente a tua falta. Diz que você é o certo, pois mesmo se tu dissesses que és o errado eu acreditaria e aceitaria como sendo a melhor das coisas. Vem, apenas vem. Eu sei que você também quer.
Droga, isso que tu és. Uma droga. E eu, palhaço, sou um viciado sem tratamento.

18 março 2012

Eu espero que você entenda

Quero que saibas que não me encontrarás mais essa noite. Não aparecerei em nosso ponto marcado, então não espere por mim. Hoje decidi caminhar por estas ruas que já foram tão nossas quando começamos o 'era uma vez' que marcava o início daquela história nunca contada de nós dois. Vagando como um simplório idiota, em segredo elas me contam o que eu apenas estava impossibilitado de ver. Teus olhares para o outro lado da rua esta avenida presenciou.
Solos de guitarra aparecem como em sintonia bem executada. As notas reviram meu interior e a minha vontade é de vomitar um pouco de você bem aqui neste chão, onde já sentamos para olhar o céu. O meio fio era o nosso melhor amigo, enquanto as fachadas das lojas deste lugar serviram como quadros negros para o amor que havíamos criado. Pintamos elas todas, a cada dia escrevendo um pouco mais. Deixamos tatuado o amor nestas portas fechadas. E às vezes eu ainda choro por mim. Choro por nós.
Sento no capô de um carro que não é meu e observo o nada por frente a mim passar. Há silêncio e há som de guitarra. Uma dose forte de nada batida com duas pedras de gelo, representando simbolicamente o teu amor. Quanto frio existe aqui. As esquinas logo em diante riem de mim, sabem que estou perdido. Pergunto-me como vim parar aqui, quero saber se eu não deveria ter voltado para você. Quem sabe comparecer ao nosso encontro para escutar aquelas explicações banais fosse uma melhor pedida. Qualquer coisa para ouvir a tua voz que me acobertaria e queimaria o que restou de mim. Afogado nesta poça de cartas de baralho eu já nem sei mais quem sou.
Como último desejo, eu espero que você entenda. Diferentemente dos mendigos presentes nesta avenida, eu não estou mendigando nada. Eu não estou mendigando o seu amor. Aquilo que quero está escondido por aí, e cabe a você agora procurar. Volte para essa rua, por favor peça para que troquem de música. Deixei você esta noite para que eu pudesse testar a minha estupidez. Pois bem, falhei. Não consegui o que queria. Eu ainda penso em você. Mas, outra vez, eu espero que você entenda. O certo não é dizer que eu não te quis, que eu te neguei. Que nos construí para implodir mais tarde. Correto mesmo é afirmar que não suportei o peso de lhe ter, por mais que isso fosse o que eu sempre quis.
Agora mesmo me deito no meio da rua. Céu logo acima, com uma mão eu poderia tocar. Agarrar estas estrelas e colecionar algo que não seja os teus beijos, pois estes eu tenho de descartar. Um carro vem brilhando ao fundo, então eu sorrio feliz. Conto um, dois, três. Olá, meu fim.

Resultados

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Você não pensou que eu iria esquecer tudo que você me fez passar, certo?