17 julho 2013

A autossuficiência dos mais fracos

Noite passada a luz da geladeira queimou. Não que isso seja lá um grande acontecimento, mas a gente só percebe a importância das pequenas coisas (e isso inclui a bendita luz da geladeira) quando elas vão embora (ou, no caso, queimam). Em meio a escuridão que inundou meu ketchup e o resto de pizza, quase liguei para um técnico, e, depois, também pensei em um eletricista, pois eu não fazia ideia de quem deveria se responsabilizar em uma hora como aquela. Digo, não existe profissão para isso, ninguém se gradua para trocar a luz da geladeira. Na dúvida, acabei chamando o meu pai.
Hoje pela manhã acordei melhor: a luz da geladeira estava consertada. Mas pai! Não precisava ter pressa - até porque durante o dia aquela luzinha é tão inútil. Entretanto, agradeci o favor e me lembrei de que, enquanto ele realizava o conserto, eu estava assistindo o último episódio de Dexter. Lá longe, no quarto. Onde quero chegar: eu não acompanhei o processo todo para saber como se conserta uma luz de geladeira. E se ela queimar outra vez?!
Enquanto o personagem da série de tevê assassinava um par de sujeitos, virei o rosto para o outro lado da cama. Vazia. Maldita insuficiência que me faz pensar que cabe mais alguém - sempre cabe. Não, não, logo pensei. Chega disso! É hora de ser autossuficiente. Se o objetivo é morar sozinho, pelo menos uma luz de geladeira eu devo saber consertar. Se todos os dias não podem ser dia dos namorados, que ao menos nos outros dias eu saiba me portar bem comigo mesmo.
Comigo mesmo? Mas eu nunca fui muito com a minha cara!
Fui para o banheiro, dei uma rápida olhada no espelho. Oi, muito prazer. Blergh, tchau. A sua cara eu vejo todo dia e já enjoei. Sentei na frente do computador, então. Rolei os olhos pelos nomes e mais nomes de pessoas que poderiam me ajudar - dentre tantas, convenhamos, alguma haveria de me ensinar a ser autossuficiente. Mas, ei! Espera. Ser autossuficiente a partir de um conselho? Quer dizer, a partir da ajuda de um segundo sujeito? Isso não é autossuficiência coisa nenhuma, para começo de conversa!
Voltei para a cama e atraquei minhas tentativas. Tipo, deixa pra lá. Talvez isso nem mesmo seja um índice de auto-insuficiência (se essa palavra existir). Quem sabe isso tudo não passa de um desdobramento da minha carência. Ah, sim, porque ela existe pra valer. Sabe, talvez fosse só vontade de ver o meu pai e talvez fosse só saudade de me sentir completo com o meu amor de uma vida toda na mesma cama que eu. Até porque eu já sei fazer a minha própria comida, pago as minhas próprias contas e também lido com as minhas próprias consequências. Qual é, eu sou um "autorazoável" de primeira!
Então, da próxima vez que a luz da geladeira queimar, eu já sei quem chamar.
- Alô, pai?

Calma!
É só saudade.

27 junho 2013

Sobre reflexos e atropelamentos

Quis não acreditar no reflexo que o espelho me mostrava, mas, escondido em algum quarto desalugado de mim mesmo (o qual quase nunca ouso entrar), havia a certeza de que um espelho nunca mente. Então lá  estava o meu reflexo banhado de verdades absolutas – e elas eram resumidas em um par de olhos pesados, olheiras significativas e lábios rachados. Deus!, quando foi que eu envelheci tanto e tão rápido? Quantos anos eu tenho mesmo? Ah, 21. Só 21. Vinte-e-um (bem assim, por extenso, para enfatizar e dramatizar o processo todo, caso contrário não seria eu).
Quando penso nesse carma que é envelhecer, logo lembro do “Discurso para Aniversariantes” que o meu pai me ensinou cedo e quase que diariamente coloco em prática. Sabe, aquela chatice toda de chegar o aniversário da sua tia, por exemplo, e, depois de desejar parabéns, você soltar um “tá fazendo 50 mas com corpinho de 22, hein!”. Isso sempre funciona. Acontece que, no meu caso, a situação é outra: estou fazendo 22 e o corpinho é de 50.
Não que esse seja o caso, problema, causa mortis da coisa toda. Mesmo. A droga real é viver atropelando tudo – e olha que o meu pai (de novo ele) ainda nem me libera o carro. Eu ando atropelando algumas amizades por pura falta de tempo, uma vez que estou alimentando aquela ânsia de terminar a faculdade amanhã mesmo. Atropelo o convívio familiar essencialmente necessário por culpa da rotina e encontro a senhora minha mãe no café da manhã e na hora de dormir. Bom dia, mãe. Boa noite, mãe. Fim de semana já é quase regalia, luxo, recompensa, ostentação. Mas, nisso tudo, eu ando atropelando a mim.
Eis que o espelho me pergunta quando foi a última vez que eu tomei uma xícara grande de chá e li um livro sem me preocupar com mais nada. Ele quer saber qual foi o domingo que eu dormi sem hora para acordar, em quantas folhas secas eu pisei no último mês (como ele sabe desse meu vício?), e quando eu andei de bicicleta pela última vez – nessa hora eu dou risada; não sei nem andar de bicicleta. Vai ver eu não tive tempo para aprender também.
Estou deslizando, escorrendo, escapando de mim mesmo. Eu estou perdendo em mim muito o que há – ou deveria haver – em mim.  Eu não estou me aproveitando - e, se há alguém que possa se aproveitar de mim, esse alguém sou eu mesmo. A solução talvez até seja deixar pra lá - enfiar a mão no saco e separar o que precisa ou não receber uma preocupação maior. E a questão final é exatamente esta: preocupação. É a preocupação que envelhece, é ela quem toma meu tempo.  Então, a partir de agora, decidi que eu vou é Narcisar. No sentido puro, é claro.
Eu vou olhar muito mais para o espelho. Mais do que isso, eu vou olhar mais para mim.

19 junho 2013

Bom dia, Geração Z

Quando jurei à bandeira, no apogeu dos meus 18 anos, prometi servir ao meu País em quaisquer que fossem as ocasiões. Seguindo o Artigo 217, jurei “estar sempre pronto a cumprir com as minhas obrigações militares, inclusive a de atender a convocações de emergência”. Naqueles dias, não imaginei que viria a colocar em prática os meus votos. Pensei, meio desnorteado devido à idade: “no Brasil não tem guerra, não vamos entrar em conflito com ninguém”. Recordando agora (já se passaram três anos), acho engraçado. Falo isso porque eu não cheguei a pensar que o Brasil pudesse entrar em conflito consigo mesmo.
De fato, eu estava errado: no Brasil tem guerra sim. Lutas diárias que vão dos causos ao caos. Seja a violência doméstica, os inúmeros crimes hediondos, as ocorrências de estupro - são apenas exemplos de situações recorrentes ao redor do mundo. Não são problemas exclusivos deste País, são problemas que envolvem a psicopatologia de qualquer indivíduo. Mas, então, qual é o problema do Brasil? O que pode haver de errado em uma terra tropical, onde tsunami não marca presença e o povo é feliz com sua caipirinha na mão e um sambinha - ou funk, caso preferir - no pé?
Cresci imerso em uma sociedade que só estende a bandeira verde e amarela quando chega a Copa, e na verdade não se pode culpar o povo por isso. Há um certo orgulho massificado quanto ao futebol porque, infelizmente, trata-se de um dos únicos expoentes positivos por aqui. Mas não existe Nação se existir apenas um motivo para orgulho. A Copa não é o problema, até porque, o problema são os outros problemas - que são maiores. A Copa é uma realidade inventada. Existe um déficit na balança comercial do País quanto à educação e saúde, porém existe um superávit quanto à construção destes estádios de outro mundo. Difícil entender. Brasil, Brasil. Quem tu estás querendo impressionar?
Creio que podemos resumir a Pátria amada em uma palavra: delay. O problema do nosso País é, sim, o delay. E, para aqueles que desconhecem o termo, já explico: delay é retardo, delay é atraso. É deixar para amanhã. Aposto neste ponto de vista porque nós, Brasileiros, fomos acostumados a aceitar a máxima dos "cinco minutinhos". Nós aceitamos uma procrastinação e nós procrastinamos. No Brasil tudo vai - vai ser melhor, vai ir pra frente, vai mudar. No Brasil nada vem. E aí aceitamos a desculpa de que o nosso único orgulho poderia gerar transporte melhor, integração sócio-cultural e desenvolvimento sócio-econômico a partir do turismo. Acontece que o turista ficará por aqui no máximo 15 dias, e eu pretendo ficar nesse chão por um bom tempo. Depois das praias e da visita ao Cristo Redentor, eu ainda estarei aqui. Eu sei o que precisa ser mudado.
Quero convergir na ideia de que a política do pão e circo ainda é aceita por pura necessidade - e irá continuar existindo enquanto trabalharmos para consumir. Sem críticas e aprofundamentos ao consumismo propriamente dito, a ideia é que, enquanto eu trabalho e faço bico para vencer as contas do mês (das quais grande parte se traduzem em impostos), eu não enxergo quem comanda o meu País. Eu vivo para esperar o fim de semana, eu vivo para esperar as férias do final do ano (quando, muitas vezes, eu vou preferir ir para fora do País - por que será?). Quase não tendo tempo para cuidar de mim, não sobra tempo para olhar quem está cuidando de nós. Tem, aliás, alguém cuidando de nós?
Existem causas, existem porquês. Mas existem muitos de nós. A sociedade vestida de exército é o maior reflexo de que, por mais variadas que sejam as indignações, cada uma delas pode (e tem de) ser revista. O meu protesto é pela cegueira generalizada provocada por um evento "cultural" que atropela o bem estar humano - as necessidades básicas de saúde, educação, transporte, moradia e alimentação não estão sendo cumpridas. A minha revolta é pelas 13 milhões de pessoas que passam fome diariamente e que certamente sabem que, não muitos quilômetros em frente, muito foi gasto para se impressionar o mundo. Mas o que se faz para impressionar o próprio povo? Falta lembrar que, se este gringo que vier assistir ao "maior espetáculo do mundo" passar mal (excesso de churrasquinho-de-gato ou cerveja podem ocasionar o mal estar), o mesmo gringo será levado diretamente de um estádio colossal para um hospital que não recebe investimento adequado.
Mas, bem, está só é a minha causa. Qual é a sua? Não é desculpa alegar que se reclama por muito, o que faz com que tudo transforme-se em nada. O foco destes manifestos está claro: mudança. Seja em qual for o setor escolhido por cada um dos manifestantes. O despertador tocou (enfim) e é hora de acordar. Bom dia, Geração Z. Chegou a nossa hora. Vamos desafogar os dedos destas teclas e afogá-los nos potes de tinta. Pinta a cara dele, pinta a cara dela. Pinta o Brasil que tu quer ver e espera ser escutado. Assim como no pífio transporte público do qual reivindicamos, sabe-se que o ônibus demora, mas ele chega. A mudança também. De antemão fica o aviso: quando chegar o 7 de setembro, as ruas também têm de estar lotadas com essa juventude esperançosa que se cria agora. Talvez (ainda) não saiamos para demonstrar um orgulho absoluto perante a uma Pátria que, lamentavelmente, ainda se encontra defasada, porém deve-se estar presente para mostrar que, nessa luta, quem vencerá será a insistência.