13 fevereiro 2013

Em tanto lugar

Pensando bem, eu já estive em tanto lugar.
Já estive em uma cama que podia me oferecer todo o amor imaginado, mas quis estar naquela onde eu figuraria apenas como parque de diversões por uma noite. Já estive debaixo de um sol inspirador e quente quando na verdade quis estar debaixo de uma tempestade devastadora. Eu já estive em abraços nos quais mal sabia o nome de seus donos, e já estive em lugares que nem mesmo quis estar.
Eu já estive em lanchonete fast food querendo estar num jantar a luz de velas. Já estive na praia querendo estar na neve, e na neve querendo estar na praia. Eu já estive no trabalho e desejei estar em casa, eu já desejei ter um trabalho para pode sair um pouco de casa. Já estive no cinema com aquelas paixonites de adolescência e nós até hoje não sabemos dar a sinopse completa do filme que 'assistimos'. Eu já estive em várias segundas-feiras querendo estar logo nas sextas, já estive sufocado em um beijo que dias depois quis outra dose, já estive bebendo o que horas depois vomitei.
Eu já estive em outro país e constantemente quero voltar a estar. Eu já estive com Fulano pensando como estava Ciclano, e hoje nem sei por onde andam esses dois! Já estive na lua, já estive noutro planeta, e poucas vezes eu já estive aqui, na Terra mesmo. Eu já estive meio branco e preto, procurando incessantemente pelo colorido. Já estive em um relacionamento enrolado querendo torná-lo sério, mas em contrapartida já estive em um relacionamento sério querendo vê-lo chegar ao fim. Eu já estive meio drama, meio comédia, meio samba e meio tango. Eu já estive todos os ritmos musicais ao mesmo tempo!
Já estive meio lá, e hoje estou meio aqui. Quem sabe amanhã onde eu vou estar? Pensando bem, eu já estive em tanto lugar.

08 fevereiro 2013

Por quem você passa batom?

Saia curta e decote controlado. Quem tu tá querendo impressionar? Tuas amigas dizem que o cara d'outro lado do bar tá te dando moral, mas tu custa em acreditar. Eu tô bem assim, eu tô bem comigo mesma. Eu sou suficiente! Esse batom cor rubro me deixa madura, independente. Mas aí tu se permite uma dose de tequila e o garçom já oferece outra de graça. Tu logo já tá rindo, atropelando alguns assuntos, aceitando a ideia de que sozinha tu só sabe mesmo é passar batom, mas nem o teu sorriso e a marca dele nos copos conseguem tirar essa pintura dos teus lábios por completo do jeito que ele conseguiria.
Se liga, guria. Existe um ele na tua vida sim. Talvez tu nem saiba o nome, telefone, em que bar ele se esconde, ou em que supermercado ele faça as compras todo mês. Quem sabe demore um pouco, talvez seja um sufoco, mas, veja lá, quem sabe ele apareça quando você menos esperar. Pode ser no elevador, pode ser pra curar tua dor. Pode nem ser no teu andar! 
Se liga, guria. Esse batom é muito forte pra que qualquer um possa olhar. Esconde isso, deixa que alguém o sonegue, e por enquanto a minha dica é esta: apenas sugere. Usa o vermelho, sim, mas usa dia sim, dia não. Vê se não banaliza esse teu rosto tranquilo e não deixa qualquer um te passar a mão! Homem pra uma vida toda é aquele que venha a se apaixonar pela cor do teu batom. Sim, exatamente, porque é nele que se esconde o riso, é por ele que sai a conversa, é dele que nasce o beijo. Então vê se escolhe direito essa cor, e que ela seja a cor do amor!
Se liga, guria. Tu olha no espelho e tá sempre a imaginar. Será que é hoje?  Será que eu acertei? Será que ele vai me olhar? Nem vem querer tentar disfarçar, nem vem com essa história de que esses lábios só são marcados porque você quer ficar bonita pra si mesma. Tá, tu te gosta assim, e se sentir bem consigo é coisa de bom tom, mas confessa e diz pra mim: Por quem você passa batom?

01 fevereiro 2013

Apanha(n)do da saudade

E quem um dia chegou a duvidar da saudade?
Ela sempre existiu mesmo. Saudade tem sempre um nome, um cheiro, uma cor ou um lugar. A saudade mora em São Paulo, Austrália, Nova Iorque ou no Japão. Mora aqui, mora lá. Ela é aquele vermelho-cereja  da camiseta que ele usou na primeira noite em que vocês saíram, é marrom-chocolate como a cor daqueles olhos que te encontraram tantas vezes, é tão verde que quase se confunde com a esperança de que ele ou ela possa voltar. A saudade pode ser um nome, masculino ou feminino, por vezes composto ou com tanto sobrenome difícil que você nem sabe escrever direito. A saudade é aquele aroma adocicado ou aquela essência amadeirada que ficou tão presa num canto da memória que você jura senti-la quando passa na rua despreocupado. Seu trouxa!
A saudade também é aquela conversa desajeitada, algumas risadas e choros na madrugada, os filmes que vocês prometeram assistir até o fim mas que foram interrompidos porque passar o tempo beijando quem se ama é a melhor opção. Saudade é aquele sentimento que mistura vergonha, vontade e medo quando se está no primeiro encontro, mas que acaba se transformando em ausência, tristeza e dor quando tudo termina. Não quero arriscar e dizer que a saudade é aquilo que não se falou - ou aquilo que se falou demais! Não quero deixar claro que a saudade pode ser querer voltar no tempo, porque provavelmente as coisas sejam como realmente deveriam ser - e a gente só precisa aceitar. Mas o que eu sei é que a saudade é um tipo de dor, daquelas que não se encontra remédio preciso na farmácia e que só se cura com aquela fórmula do esquecimento chamada tempo. E quando cura!
Quando bate na porta e a gente atende, a saudade invade a nós como intrusa mal educada. Ela logo vai preenchendo cada espaço vazio e trazendo de volta à superfície aquilo que tanto lutamos para manter lá no fundo. A saudade grita, a saudade fala em voz alta. Mas saudade também pode ser silêncio. A saudade, na verdade, ao que se sabe, também é rima. É uma música - ou talvez duas, três, quatro, cinco, ou até um disco inteiro. Saudade é letra, palavra, poema, prosa, livro, novela. A saudade pode ser estática como uma fotografia ou fugaz como um vídeo. Pode ser uma segunda-feira de cinema, as quartas de pizza ou as sextas de sol. A saudade pode ser todos os dias da semana, todos os meses do ano. Aquele ano!
Saudade é um brinde que vem com a vida, todo mundo ganha. Todo mundo sente saudade. Seja do filho que foi fazer intercâmbio, da mãe que foi ver se o céu é um lugar melhor mesmo, ou do 'amor da minha vida' que resolveu que, exatamente agora, o problema é ele e não eu. A saudade quase sempre está ligada ao amor. Amor que sentimos pela infância, pelo cheiro de areia da praia, pela música do CD esquecido na estante, pelas cartas escritas que agora já não são motivo para resgatar um relacionamento, pelo chocolate que não é mais fabricado ou por qualquer outra coisa que nos faça pensar. Saudade é isso, é pensamento. É martelar o que já não mais está aqui. Insistência, insistência. Até que ponto é válido senti-la?
A saudade é mesmo traiçoeira. Acomete, se mete, e quase nunca se esquece. Do beijo, do abraço, do momento, do sentimento. O que resta é recordar essa falta que é tão necessária, e acreditar que, sim, nós todos precisamos até mesmo da saudade para que não esqueçamos o quanto algo - ou alguém - já nos fez feliz algum dia. Conclui-se então que a saudade é uma felicidade que foi dar uma volta. Mas será que volta? Bem, só nos resta esperar.