08 janeiro 2014

E se eu não chegar lá

Se eu não chegar lá talvez ninguém se importe. Talvez você me troque. E, por falta de sorte, vou entender que teria sido sorte cuidar do meu bom senso.
Quem sabe, se eu não chegar lá, amanhã não haja bom dia, bom trabalho; daquele sofá fujam os amassos, e hoje nem boa noite vou dizer.
Se eu não chegar lá não vou ter chego a lugar nenhum, e essa noite vou ser só mais um a entrar pra lista dos que hoje tiraram o dia para morrer.
E se eu não chegar lá eu vou dar trabalho pro hospital, e vai até pegar meio mal ser atendido por alguém que não seja você. Cadê você?
Se eu não chegar lá o caminho terá sido em vão, meio escuro. Vai saber o que tem detrás deste muro? Um rouba-vidas ou algo que nem cheguei a conhecer?
Se eu não chegar lá, talvez eu cause uma saudade. Nada que um dia não acabe. Porque insubstituível mesmo só você. A meu ver.
Caso eu não chegar lá, talvez eu não tenha sido o suficiente, e eu, meio descrente que nem sempre, vá chorar o caminho inteiro para sabe-se-lá-onde-estou-indo.
Eu sei.
Não vão me suportar.
Então, se eu não chegar lá.
Vem atrás.
De mim.
E diz:

Olá :-)

02 janeiro 2014

E se eu parar de rabiscar?

Bloqueei qualquer parte de mim que respingou na escrita. Em meio a estas mudanças do dia a dia, decidi que meu punho não sabe mais ser cursivo e que do meu lápis não sai a-be-cê nenhum. Acreditei na minha própria mentira, na minha própria piada. Sempre fui um piadista de marca fajuta. Acontece que comecei o dia de hoje pensando que não sei mais escrever.
"Desaprendi" - foi essa a ordinária, a palavra escolhida para rotular a inércia de meu abandono linear. Simples assim. Ontem sabia, hoje já não sei mais. Escrever? Quequéisso. Nem me lembro como faz. Mas, espera. Quero fazer. Quer dizer, eu preciso escrever. Sou escritor. Pensa só se o carteiro resolve deixar de entregar cartas. E quando foi que os médicos decidiram não salvar alguma vida? Nunca, nunquinha! Então por que o escritor resolveria que assim, de uma hora para outra, abandonar tudo seria uma escolha sensata? Papinho de preguiçoso.
Teorizei, então. Não procurei nos livros grossos, mas sim fui buscar na minha própria fatia de loucura. Ali, ao lado da racionalidade (gavetas opostas se postas lado a lado funcionam melhor), encontrei o que preferi chamar de solução. E se eu parar de rabiscar? Bem, tanto faz. Estou de férias. É feriado na cidade dos papéis em branco.
E, veja só: enquanto veraneio e devaneio - eis a escrita.

22 dezembro 2013

Sob o céu de São Paulo

Escrevo-te para contar que por aqui as nuvens são carregadas - creio que tanto quanto eu. Durante o dia são pálidas, tornando-se negras à noite. Parecem guardar algo pesado demais para que permitam deixar ir embora simplesmente. No céu, alojadas livres de uma sequência lógica, elas me impedem de ver. Ver o que há do outro lado, o que fica lá longe. O céu, então, não é o mesmo.
Há solidão sob o céu de São Paulo. Em contrapartida, há eu em você. Nos cheiros e esquinas, nas ausências e madrugadas. Moram consequências de um até logo desajeitado, mas moram também suspiros trêmulos de um prospectado reencontro. Aluguei, por estes dias, a parte de mim que precisava ser re-conhecida. Paguei caro. Paguei com lágrimas que escondi debaixo do travesseiro para que você não visse mesmo de longe. Paguei com faltas, paguei com ecos. E nem parcelar a saudade me deixaram.
Entendo que o céu é outro porque certas vezes só uma tempestade forte é que nos faz recomeçar. Me deram um céu sujo para que eu precisasse reunir o necessário para borrá-lo de azul. De Sul. Sei-lá-quem me obriga agora a enxergar do outro lado destas nuvens poluídas. Para, assim, encontrar o mesmo céu que você.