19 março 2013

Abecê

De que vale
A minha poesia
Se você não ler
Ou entender

Eu a descartaria
E você riria
Ia preferir ver
Um programa de tevê

E aos poucos
Nessa vazia rotina
A gente perderia
Meu amor codificado em ABC

Então de que vale
Essa minha poesia
Se você não ler
Ou entender

Que nela
Esse frustrado poeta
Escondeu você

10 março 2013

Saiam da livraria

Metade do sábado já havia ido embora e eu estava em uma livraria, não que isso fosse novidade. Garimpando Chandler nestes bem pensados formatos pocket, eu curtia o silêncio de uma solidão acompanhada (tantos autores a minha volta não podiam ser ignorados). Eis que, ao imaginar se a minha estante comportaria mais um livro, ouvi barulho. Gritos.
Mas o quê?!
Uma trupe de seis adolescentes entrara pela porta bradando mais alto que escola de samba ao pisar na avenida. Três guris, três gurias. Todos jovens demais para formarem casais. De imediato pulei das páginas para me espatifar na realidade outra vez. Observei os seus caminhares por entre as gôndolas de livros desejando que não derrubassem nada. Tentei entender porque falavam tão alto sem me dar conta de que eles provavelmente não sabiam que, para um leitor, uma livraria é como uma igreja para um fiel. Então silêncio, por favor. E, mais importante, me perguntei: o que vocês estão fazendo aqui?!
Egoísmo, eu sei.
Logo eu, que sempre dividi os brinquedos e nunca deixei de compartilhar os pacotes de bolacha (com uma tremenda dor no coração). Eu, leitor e escritor, sendo egoísta o suficiente para não dividir os livros - quando deveria ser o contrário. Caso voltasse à metáfora celestial, a minha atitude seria o mesmo que o padre não querer distribuir a hóstia. Mas que feio. No entanto, por mais que tentasse me focar nas minhas futuras aquisições, na minha mente a frase gritada sem poder ser ouvida era só uma:
Saiam da livraria, saiam da livraria!
Mamãe diria para eu não ser egoísta. Papai diria que eu não devo julgar as pessoas. Ha-ha. Como não? Naquele momento já era tarde, pois eu olhava para todos como se fossem personagens de minhas histórias. Personagens secundários, é claro, os quais eu provavelmente não teria orgulho em criar. Isto até poderia soar deveras rude, caso uma das gurias não tivesse finalizado aquela visita sem sentido à livraria com uma frase em tom desdenhoso:
- Me dá esse de presente? - Segurava um clássico nas mãos. - Brincadeira, eu nem gosto de ler.
Enquanto observava aquele futuro indeterminado, assustador e triste enfim deixar o local junto de toda trupe, pensei comigo mesmo, egoísta que sou:
Ainda bem.

08 março 2013

Mulherando

Dizem por aí que eu sou complicada e perfeitinha. Complicada eu até que concordo de segunda a sexta, mas perfeitinha não. Nunca, nunquinha. Jamais! Até porque, me sobram dois pneuzinhos em cada lateral do corpo, o jeans tamanho 38 tá guardado no armário pra lembrar o tempo das vacas magras - literalmente! - e acho que, se fosse analisar bem, precisaria de umas duas injeções de botox. No mínimo, é claro.
Além disso, perfeita eu seria se tivesse uns centímetros a mais de altura, ou até mesmo se conseguisse não ter que correr tanto todos os dias. Pego o caçula no inglês, busco o mais velho no colégio, largo a tropa em casa e corro pra academia. Volto depois de uma hora, como pão integral e saladinha. Mas depois me bate aquela vontade de chocolate e eu dou um pulinho na cozinha sem ninguém perceber (todo mundo deve pensar que eu fico lavando a louça). Escondida - de todos e de mim mesma - belisco um pedaço da barra de Diamante Negro, mas logo perco o controle. E aí o caçula me vê, sai pela casa gritando 'lá vem a menstruação, lá vem a menstruação!'. Sim, eu ainda tenho que lidar com isso. Que dizer então da menopausa?
No fato de ser complicada, passei muito tempo tentando discordar. Quem, eu? Complicada? Imagina, meu bem. Eu sou a pessoa mais fácil de se compreender no mundo! Eu só não gosto de ser contrariada. Eu uso sapato da marca tal só porque são mais confortáveis, as bolsas são daquelas do nome composto porque duram mais, isso é óbvio. E nem venha me falar que eu só vou no banheiro com uma amiga por perto, porque isso é coisa de mulher e você nem precisa entender. Mas hoje em dia, me achando meio figurante do Parque dos Dinossauros, eu até que concordo. Sou complicada, difícil de se compreender. Isso no bom sentido, é claro. Até porque, qualquer mulher que se preze é misteriosa.
Disseram por aí há alguns anos que eu não era mais menina, e que então eu era uma mulher. Achei tão legal, sabe, essa coisa de ser madura e não mais uma menininha. Eu sou adulta já, olha pra mim! Em compensação, agora, anos depois, dou um abraço bem apertado em qualquer um que venha me dizer: 'nossa, você tá tão jovem'. E aí, meu Deus?! Como faz pra ser menininha de novo? Que merda! Ai, eu disse palavrão. Merda. Merda! Mulher também diz merda. 
Esses dias meu marido até disse que eu estava mulherando demais. Mulherando?! Como assim? O que você quis dizer com mulherando? Não me chama de mulher não, porque sou eu quem coordena essa casa. Trabalho 40 horas por semana, ajudo o caçula a fazer tarefa, e ainda cuido das namoradas do mais velho - uma nora de boa família, por favor. Passo no supermercado no fim do dia e no horário do almoço faço pilates. Quanto ao fim de semana, bem... Eu ainda tenho que lavar roupa, passar e limpar a casa. Então não vem me dizer que eu estou mulherando porque isso eu não aceito. Afinal, eu não sou nenhuma mulherzinha.
Cá entre nós, eu sou um puta dum mulherão.